José Marcelino

O Primeiro Convertido da igreja de Cristo no Brasil

São Paulo, Brasil — Em meio ao fervor religioso do século XX, quando o Brasil testemunhava a multiplicação de denominações e movimentos evangélicos, um homem silencioso, mas de fé inabalável, desempenhou um papel decisivo no trabalho de uma das mais singulares expressões do cristianismo restauracionista no país: José Marcelino dos Santos. Ele foi, pelos registros conhecidos, o primeiro batizado da nova geração (1956-1961) que plantou a igreja de Cristo no solo brasileiro.

Convertido em novembro de 1956, José Marcelino entrou para a história não por discursos grandiosos ou estruturas monumentais, mas por sua dedicação incansável à Bíblia, ao evangelismo pessoal e à formação de discípulos. Sua conversão ocorreu sob a orientação de Arlie Smith, missionário norte-americano considerado o pioneiro da Igreja de Cristo no Brasil em tempos modernos. Foi Smith quem o batizou e o discipulou, iniciando uma parceria espiritual que mudaria o rumo do movimento cristão não-denominacional no país.

Em poucos meses, José Marcelino se destacou como um pregador talentoso e estudioso. Após um período de aprimoramento nos Estados Unidos, retornou ao Brasil ao lado dos Smiths, decidido a dedicar sua vida ao ministério em tempo integral — uma escolha rara e corajosa para a época.

Na pequena congregação da Bela Vista, em São Paulo, ele se tornou uma das pedras angulares. Naquela modesta sala comercial, onde apenas quatro almas se reuniam — os Smiths, a filha Suzy e a empregada doméstica —, José Marcelino ajudou a construir uma comunidade de fé que, em poucos anos, se expandiria por todo o território nacional.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória ocorreu em junho de 1961, quando recebeu, no porto de Santos, a comitiva de 13 famílias missionárias enviadas pela Igreja de Cristo dos Estados Unidos. Esse evento representou um marco na história do movimento no Brasil, e José Marcelino, como um dos poucos membros locais, simbolizava a continuidade entre a missão pioneira e o futuro da igreja no país.

Mas talvez seu legado mais duradouro tenha sido sua influência sobre Severino de Souza, figura central na expansão da Igreja de Cristo nas décadas seguintes. Foi José Marcelino quem, com paciência e profundidade bíblica, conduziu Severino por um curso de 40 lições intitulado “A Igreja do Novo Testamento”. Com base nesse estudo, Severino encontrou a igreja que há dois anos procurava: não denominacional, bíblica, simples.

“Ele me mostrou revistas como Contacto, com fotos de igrejas nos EUA, e me provou que aquilo não era uma seita, mas um movimento real”, recordou Severino em depoimentos posteriores. José Marcelino não apenas o batizou, mas o incentivou a abandonar um emprego estável para se dedicar ao ministério, oferecendo-lhe um sustento simbólico de 75 dólares — quase um salário mínimo na época. “Fisicamente, ele me levou ao batismo”, disse Severino, ressaltando a dimensão pastoral e paternal de José Marcelino.

Até os últimos dias de sua vida, José Marcelino permaneceu fiel. Frequentava a congregação do Butantã, em São Paulo, onde ainda pregava e ministrava com a mesma convicção dos primeiros anos. Sua esposa, Dalila dos Santos, continuou ativa na fé, sendo vista ainda em 2016 na mesma comunidade, testemunhando o fruto de uma vida dedicada ao evangelho.

José Marcelino dos Santos faleceu em 2005, mas sua herança vive. Ele não construiu catedrais, mas plantou sementes. Não buscou notoriedade, mas transformou vidas. Em um tempo em que o cristianismo brasileiro é muitas vezes associado ao espetáculo e ao poder, sua história lembra que o verdadeiro avivamento começa com um homem, uma Bíblia e um chamado silencioso de Deus.