40 anos de fé e transformação: a história da Igreja de Cristo no Centro de BH

40 anos de fé e transformação: a história da Igreja de Cristo no Centro de BH

BELO HORIZONTE — O Brasil de 1986 era um país de incertezas econômicas e transformações sociais. Era o ano da criação do Plano Cruzado, da efervescência das filas nos orelhões de fichinha e da circulação do Fusca branco pelas ruas de Belo Horizonte. Foi exatamente nesse cenário que um grupo de fiéis, liderado por missionários norte-americanos, decidiu fincar razes no Centro da capital mineira. Quarenta anos depois, a Igreja de Cristo no Centro de BH celebra não apenas a sua sobrevivência, mas uma profunda metamorfose: de um estacionamento alugado a um polo de ação social e formação teológica.

Durante as comemorações de aniversário da congregação, o missionário Gates, que chegou ao Brasil em 1979, conduziu os irmãos por uma viagem no tempo na mensagem desde domingo 18 de Outubro. “Muitas coisas mudaram. Do Cruzeiro ao Real, do orelhão de fichinha ao WhatsApp gratuito. A tecnologia facilitou a vida, mas a missão permanece a mesma”, refletiu o missionário, arrancando risadas da plateia ao lembrar dos valores cobrados nas primeiras ligações de celular “tijolão”.

Do Estacionamento Tocantins ao Patrimônio Comunitário

A história da congregação no Centro é marcada pela resiliência. Após passar por bairros como Água Branca e Alípio de Melo, e enfrentar as dificuldades de alugar auditórios de faculdades — onde chegavam a realizar cultos debaixo de chuva —, a igreja deu um passo ousado no final dos anos 80.

Em 1989, a igreja adquiriu o antigo Estacionamento Tocantins. “Durante a semana eram mais de 100 carros; aos domingos, nós tirávamos os veículos e colocávamos cadeiras. Não havia dinheiro para reformar”, relatou Gates. Com o trabalho mutirão de membros como Otávio, o local foi transformado. Décadas mais tarde, o espaço ganharia tratamento acústico moderno e se tornaria um ponto de referência, inclusive recebendo o título de patrimônio histórico da prefeitura.

A Dor das Ruas e o Abrigo da Esperança

Se a nostalgia marcou o início da cerimônia, foi o olhar para a realidade social que trouxe o momento de maior peso jornalístico e humano da noite. Citando uma reportagem histórica do Estado de Minas de 1995, que apontava a retirada de 700 crianças das ruas de BH por mês pela Polícia Militar, o missionário lembrou o ponto de virada da igreja.

Inspirados pela máxima bíblica de cuidar dos órfãos e viúvas, os fiéis iniciaram em 2007 a construção de um abrigo. Hoje, o complexo conta com três casas prontas e uma em fase de fundação, acolhendo 12 crianças por residência, com idades entre 0 e 7 anos. “A religião pura e imaculada é esta”, enfatizou Gates, ao mostrar imagens das crianças devidamente assistidas, em contraste com a dura realidade das ruas dos anos 90 que motivou o projeto.

Expansão Midiática e Novos Horizontes

A congregação do Centro não cresceu sozinha. Ela atuou como “igreja-mãe” para a plantação de novas congregações em Betim, Contagem, Neves, Santa Luzia, Juiz de Fora, Vitória (ES), Montes Claros e Uberlândia.

Além disso, a instituição rompeu os muros do templo através das comunicações. Com programas transmitidos pela Rede Bandeirantes, Rede Manchete e Rede Super, a mensagem alcançou dezenas de estados. Paralelamente, consolidou-se como um polo educacional através do Centro de Treinamento Cristão, do Seminário Bíblico Nacional (SBN) e, mais recentemente, do Instituto Bíblico Bear Valley.

O Desafio das “Planícies da Vida”

Encerrando a trajetória de quatro décadas — um marco bíblico que simboliza o fim de uma etapa e o início de uma nova era, assim como a travessia do deserto pelo povo de Israel —, o missionário deixou uma reflexão que foge do habitual discurso de celebração.

Gates alertou para o perigo das “planícies da vida”. “Nos vales dos problemas e no topo das montanhas das bênçãos, é fácil buscar a Deus. O desafio está nas planícies, quando tudo está normal, em paz. É aí que o ser humano relaxa e se torna ritualista”, ponderou, desafiando a igreja a não permitir que a estabilidade dos 40 anos os torne complacentes.

Após quatro décadas de trocas de moedas, revoluções tecnológicas e mudanças na paisagem de Belo Horizonte, a Igreja de Cristo no Centro prova que, enquanto o mundo lá fora se transforma, a sua vocação para dentro e para a rua permanece inalterada.

Deus seja louvado pelos 40 anos da igreja de Cristo no centro de BH!