Escola da Bíblia, sediada em São João da Boa Vista (SP), chegou a atender 42 unidades prisionais antes de 2020 e agora reconstrói rede de evangelização carcerária com sigilo absoluto e gratuidade total
São João da Boa Vista, SP — O que antes era uma operação estruturada, com reuniões anuais, metas regionais e seis congregações trabalhando em sintonia, tornou-se, após a pandemia, uma resistência solitária. A Escola da Bíblia de São João da Boa Vista, SP, projeto de ensino bíblico não religioso por correspondência voltado a pessoas privadas de liberdade, ministério já conhecido da irmandade, tenta recuperar o terreno perdido e voltar a alcançar presídios em todo o território nacional.
Todos nós conhecemos as palavras de Jesus:
“necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. (Mateus 25:36)
De 42 presídios a uma retomada cautelosa
Antes da crise sanitária de 2020, o projeto mantinha atuação ativa em 42 unidades prisionais no estado de São Paulo e em penitenciárias da região Sul do país. A operação era coordenada por seis congregações — São João da Boa Vista, Igreja Guanabara (Campinas), São Bernardo do Campo, São Paulo, Sorocaba, Ribeirão Preto e 9 de Julho — que se reuniam anualmente para traçar metas e dividir regiões de atendimento.
“Digamos que um detento está na região noroeste e ele está matriculado em Ribeirão Preto. Se eu recebo um pedido aqui na minha região do mesmo detento, para não sobrepor, eu envio para lá. Era assim que funcionava“, explicou José Domingos de Pádua, coordenador do projeto, em conversa por WhatsApp e através de um documento do trabalho.
A pandemia, no entanto, desarticulou a rede. Ribeirão Preto foi a primeira congregação a desistir, logo no início do isolamento. “Depois da pandemia, tudo foi ficando mais difícil. Os diretores de presídios ficaram muito resistentes”, relatou José Domingos.
Primeiros sinais de recuperação
Apesar das dificuldades, o projeto começa a dar sinais de vida. Recentemente, materiais de estudo foram enviados a um presídio em Pontal (SP), à Penitenciária Feminina de Mogi Guaçu (SP) e a um detento em Casa Branca (SP). A estratégia de divulgação inclui o envio de ofícios e e-mails às diretorias das unidades, além do contato telefônico direto.
Um mecanismo orgânico de expansão, segundo o coordenador, segue funcionando mesmo diante da resistência institucional: “Quando um detento se matricula lá dentro, ele mesmo recebe um pequeno formulário para matricular outros. Geralmente, quando chega o exercício que ele fez, vem acompanhado de mais três ou quatro pedidos de inscrição.”
José Domingos ressalta ainda a comunicação entre presos de diferentes unidades: “Um preso se comunica com o preso de outras penitenciárias. É só começar com dois, três, que rapidinho a gente vai estar ‘invadindo’ os presídios do Brasil de novo. Essa é a minha esperança.”
Caixas de cartas e um sonho arquivado
Na sede do projeto, em São João da Boa Vista, caixas abarrotadas de correspondências recebidas de detentos ao longo de mais de dez anos de trabalho estão arquivadas. “Eu arquivei todas elas. Tem um histórico aqui. E o meu sonho é voltar a fazer isso”, confessou o coordenador.
Apelo por divulgação, não por dinheiro
Diferentemente de muitas iniciativas sociais, a Escola da Bíblia não busca apoio financeiro. “Qualquer ajuda que você nos fizer, não é ajuda financeira. Graças a Deus nós temos recursos aqui para isso. Mas ajuda de divulgação“, enfatizou o irmão José Domingos. Folhetos digitalizados já foram enviados a colaboradores em Belo Horizonte (MG), após contato feito durante uma conferência feminina realizada no último sábado, que reuniu participantes de diversas congregações.
Sigilo absoluto e respeito às normas
O projeto faz questão de reforçar dois compromissos: o sigilo total da comunicação com os detentos e o respeito irrestrito às normas de cada unidade prisional. “A comunicação entre nós e o detento é ponto final. É sigilo absoluto”, garantiu o coordenador. Todo o material enviado — Bíblias, livros, cadernos e apostilas — é em formato brochura, sem capa dura, espirais ou qualquer item metálico, cortante ou perfurante, em conformidade com as regras penitenciárias.
O custo é zero para o aluno e para sua família. A Escola fornece todo o material, inclusive envelopes selados, para que o detento possa iniciar e concluir os cursos sem qualquer despesa.
O objetivo final
Sem vinculação a nenhuma instituição religiosa específica, o projeto declara como missão oferecer “transformação de vida através do conhecimento da vontade de Deus por meio do estudo simples e puro da Bíblia“, sem divulgação de igrejas, venda de objetos ou qualquer interesse secundário.
“O grande alvo é ajudar cada pessoa a se religar a Deus por meio de uma nova vida em Cristo. Essa transformação interior produzirá benefícios individuais e coletivos“, consta no documento oficial do projeto, datado de maio de 2025.
Enquanto a burocracia e a desconfiança pós-pandêmica ainda impõem barreiras, José Domingos de Pádua segue, de São João da Boa Vista, respondendo cartas, enviando folhetos e esperando que, um dia, as 42 penitenciárias voltem a ser apenas o começo.
João Cruz, para o Comunhão News.











