– Na igreja de Cristo, não usamos o título de ‘pastor, para ninguém compreendendo que Jesus é o único Supremo Pastor e Bispo das nossas almas. Ele é o bom Pastor e ninguém, além de Jesus, foi chamado do Pastor no Novo Testamento
– Ah, é mesmo? E Efésios 4:11? Diz assim:
“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Efésios 4:11)
Você já parou pra pensar por que chamamos alguns irmãos na igreja de “pastor”? Parece natural, porque ouvimos este termo em praticamente todas as denominações, mas quero te convidar a olhar com mais atenção para a palavra de Deus. Afinal, quem é, de fato, o Pastor da igreja? E o que muda na nossa vida quando entendemos essa diferença?
Um só Pastor, muitos cuidadores
João 10:11 é claro: Jesus se apresenta como “o bom pastor” — no singular, com artigo definido. Ele não divide esse lugar com ninguém. Pedro reforça isso em 1 Pedro 5:4, chamando Cristo de “o supremo Pastor“. Note bem: não “um” pastor entre outros, mas o Pastor. Essa não é uma questão de palavras, mas de coração. Reconhecer isso nos livra da armadilha de colocar qualquer ser humano no posto que só a Cristo pertence.
Isso não diminui o trabalho de quem lidera. Pelo contrário: valoriza o serviço sem inflar posições. Quando entendemos que somos apenas cooperadores sob o cuidado d’Ele (1 Coríntios 3:9), servimos com mais liberdade e menos peso nas costas.
O que Efésios 4:11 está dizendo, afinal?
Muitos leem “pastores e mestres” e imaginam dois cargos ou funções distintas (na igreja nós sabemos que não existem cargos). Mas o original grego sugere algo mais sutil: “pastores-mestres“. Trata-se de uma mesma função descrita por duas ações: cuidar e ensinar. O texto não está criando um título oficial, mas apontando para pessoas que exercem esse cuidado prático no meio do povo.
Importante notar: o verbo usado nas orientações aos líderes é pastorear (Atos 20:28; 1 Pedro 5:2), não o substantivo “pastor“. A ênfase está na ação, não no rótulo, não no título que já tem dono. Quem cuida do rebanho age como Cristo agiria — com paciência, presença e disposição para sujar as mãos quando preciso. Ele veio para servir e este é o modelo.
Ele é o único que merece o título, assim como o título de Cristo, Senhor e Mestre:
“Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (João 13:13,14)
Como a Bíblia chama os que pastoreiam, então?
Os termos mais comuns são bem diferentes do que costumamos ouvir:
– Presbíteros (Atos 14:23): homens maduros que orientam com sabedoria;
– Bispos ou superintendentes (1 Timóteo 3:1-2): responsáveis por zelar pelo bem-estar espiritual;
– Diáconos (Filipenses 1:1): servos práticos que atendem às necessidades da comunidade.
Nenhum desses termos carrega a carga simbólica de “pastor” no singular — justamente para não ofuscar quem realmente conduz o rebanho. Até mesmo Paulo, ao se despedir dos líderes de Éfeso, disse:
“Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.” (Atos 20:28).
Ele não disse “como pastores“, mas como vigilantes sob autoridade maior, para pastorear, não para serem o pastor cada qual em sua congregação local. Cada congregação local já tem um Pastor e é o mesmo Pastor sobre todas as igrejas de Cristo.
Verbo para Humanos, Substantivo para Cristo
O Novo Testamento estabelece um padrão linguístico e teológico claro quanto ao uso do termo “pastor”: enquanto Cristo é identificado com o substantivo definitivo ὁ ποιμήν (o Pastor) – título singular e exclusivo que expressa sua identidade, autoridade suprema e cuidado único pelo rebanho (João 10:11, Hebreus 13:20) –, aos seres humanos é designado o verbo ποιμαίνειν (pastorear), descrevendo assim uma ação delegada, um serviço e uma função (Atos 20:28, 1 Pedro 5:2). A menção aos “pastores” (ποιμένας) em Efésios 4:11, no plural e em conjunto com “mestres”, deve ser entendida dentro deste marco: não se trata de conferir um título de possessão ou de autoridade inerente, mas de descrever aqueles que exercem, como mordomos e servos, a ação prática de pastorear o rebanho de Deus, sempre sob a direção e o modelo do único e supremo Pastor, Jesus Cristo. Essa distinção preserva a supremacia de Cristo e evita qualquer confusão entre o Senhor da Igreja e aqueles que Ele chama para servir em seu nome.
Resumindo: não devemos chamar um presbítero de pastor, porque o texto do Novo Testamento ensina que esta é a função deles, mas não o título. Pastor, no singular, só tem um.
O que muda quando entendemos isso?
Primeiro, nossa fé cresce porque enxergamos Cristo com mais clareza. Ele não delegou Sua função principal; Ele mesmo continua guiando, protegendo e buscando as ovelhas perdidas (Lucas 15:4-7). Isso nos dá segurança: mesmo quando líderes falham — e todos falham — o Pastor permanece fiel.
Segundo, nossa prática muda. Deixamos de esperar que um homem resolva tudo e passamos a assumir nossa parte no cuidado mútuo. Efésios 4:12 mostra que os dons ministeriais existem “para o preparo dos santos para a obra do ministério“. Ou seja: todos somos chamados a pastorear uns aos outros no dia a dia — com uma palavra de ânimo, uma visita, uma escuta atenta.
Terceiro, evitamos o clericalismo. Quando elevamos alguém ao posto de “o pastor“, criamos distância. Por esta atitude, estamos tirando Jesus do seu lugar e colocando um homem que tem a capacidade de nos decepcionar. Quando reconhecemos que somos irmãos exercendo funções diferentes sob um só Senhor, a comunidade respira melhor. A liderança se torna serviço visível, não posição inacessível.
Seguindo o único Pastor
A beleza dessa verdade é simples: não precisamos de intermediários para chegar a Deus, nem de heróis humanos para manter a fé viva. Temos um Pastor que conhece nossas dobras, nossas feridas e nossos tropeços — e mesmo assim não nos abandona.
Isso nos liberta para servir uns aos outros com humildade. Quem ensina, ensina como discípulo. Quem cuida, cuida como cooperador. E todos, sem exceção, olham para Cristo como a fonte, o modelo e o destino do nosso cuidado.
Que nossa fé cresça não na dependência de pessoas, mas na confiança daquele que disse: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (João 10:27). E que, ao segui-Lo, aprendamos a cuidar com as mãos d’Ele e o coração d’Ele.











