Gerados com dor, amados com esperança

“Faço um pedido em favor de meu filho Onésimo, que gerei entre algemas.” Filemom 10

Estou encerrando minha leitura da pequena carta de Paulo a Filemom e dela tenho extraído muitas lições que tenho compartilhado em minhas redes sociais.

O apóstolo Paulo tinha uma sensibilidade pastoral profunda ao falar da conversão de uma pessoa a Cristo. Não por acaso, ele recorreu várias vezes à imagem das dores do parto para explicar tanto o nascimento espiritual de um novo convertido quanto o sofrimento, a luta e o amor daquele que anuncia o evangelho.

No texto de hoje, Paulo escreve a respeito de Onésimo como aquele a quem ele gerou entre algemas. Aqui, a conversão não é tratada como um evento frio ou meramente intelectual, mas como um processo de geração ocorrido em meio à dor, à limitação e ao sofrimento — “entre algemas”. O evangelho estava livre, ainda que o mensageiro estivesse preso.

Essa mesma ideia aparece em 1 Coríntios 4:15: “Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus”. Paulo se vê como pai espiritual, alguém que participou ativamente desse nascimento, assumindo responsabilidades, dores e cuidados.

Mas é em Gálatas 4:19 que a metáfora atinge seu ponto mais intenso: “Meus filhos, por quem, de novo, sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós”. Observe: Paulo fala de dores repetidas, contínuas. Não se trata apenas de levar alguém à fé, mas de perseverar até que Cristo seja plenamente formado na vida dessa pessoa. O parto espiritual, muitas vezes, não termina na conversão inicial.

Ama, não apenas pregador. Paulo aprofunda ainda mais essa imagem quando descreve seu modo de servir: “Antes, fomos carinhosos entre vós, como ama que acaricia os próprios filhos” (1 Tessalonicenses 2:7). Aqui vemos o equilíbrio bíblico: o mesmo homem que fala em dores de parto fala também em ternura, cuidado e afeto. Evangelizar não é apenas proclamar uma mensagem correta, mas amar profundamente pessoas, muitas vezes frágeis, confusas e feridas — ainda que elas nem percebam o quanto estão perdidas, conforme Mateus 9:36.

O risco do aborto espiritual

A metáfora do parto também nos alerta para algo sério: há risco de aborto espiritual quando não tomamos os devidos cuidados. Isso pode acontecer quando não escolhemos o momento certo para falar (Eclesiastes 3:7); quando nosso testemunho contradiz a mensagem que pregamos (Romanos 2:21–24); quando falamos sem amor, sem paciência ou sem graça (Colossenses 4:6); ou quando confiamos apenas em palavras, e não em oração.

Eu, particularmente, lembro de alguns abortos espirituais que contribuí para que existissem por falta de sabedoria, tato e amor. Quantas vezes, após dizer uma palavra mais dura ou não pensada, ou por uma atitude incoerente, não saí do encontro de quem compartilhava o evangelho com o coração apertado, pois talvez tivesse dito além do que deveria? Paulo viveu isso também: basta ler a segunda carta aos Coríntios e vemos Paulo aflito pelo receio de ter perdido sua relação com aquela igreja.

Paulo nos lembra que esse processo envolve luta espiritual. Por isso, ele diz que Epafras “lutava” em oração (Colossenses 4:12). Gerar alguém para Cristo exige joelhos dobrados, lágrimas silenciosas e perseverança constante (1 Samuel 12:23).

Entre alegrias e tristezas

Aqui falo também de forma pessoal. Há uma alegria santa em ver pessoas nascerem em Cristo. Alguns desses nascimentos foram partos difíceis — longos, dolorosos, cheios de resistência — mas gloriosos. Ver Cristo sendo formado em alguém é a maior recompensa do ministério cristão.

Mas há também a tristeza dos abortos. Pessoas por quem oramos, choramos, investimos tempo e amor, mas que, por diversas razões, não aceitaram a mensagem de Jesus ou a rejeitaram deliberadamente (João 5:40). O próprio Paulo sentiu isso (cf. Gálatas 1:6 e 2 Timóteo 4:10). Até o Senhor Jesus chorou por Jerusalém (Lucas 19:41–42).

Conclusão

Evangelizar é amar. Amar é sofrer. Sofrer é persistir. E, mesmo quando há dor, seguimos crendo que: “Nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Coríntios 3:7).

Que o Senhor nos dê um coração como o de Paulo: disposto a sentir dores de parto, a agir como ama, a lutar em oração e a amar almas que, muitas vezes sem saber, estão perdidas — até que Cristo seja formado nelas.