Por que, se Deus tem poder para tudo, Ele não cura todo mundo?
A pergunta não é teórica. Ela nasce no silêncio de um corredor de hospital, no aperto no peito de quem perdeu alguém cedo, na revolta honesta de quem vê a dor bater à porta sem aviso prévio. Você não está sozinho nessa dúvida. Na verdade, ela é um dos sinais mais claros de que algo, lá no fundo, sabe que o mundo não deveria ser assim.
Se você acordasse amanhã com o dom de curar o câncer, eu já sei o que faria: pegaria o carro, correria para o hospital e começaria pela ala infantil. Eu também. E é exatamente por pensar assim que a gente trava quando lê os evangelhos. Jesus curou muitos, mas não todos. Ressuscitou Lázaro (João 11.43-44), mas Lázaro voltou a morrer anos depois. Por que o amor de Deus parece seletivo? A resposta não está em um Deus indiferente. Está em uma verdade que a Bíblia repete como farol: nós vivemos num mundo em parênteses.
O parêntese onde a dor faz sentido
O filósofo Albert Camus observou algo simples e brutal: carregamos dentro de nós duas noções. Como o mundo é. E como ele deveria ser. Quando essas duas realidades colidem, nasce a angústia. Se a vida fosse apenas biologia e acaso, a doença de uma criança seria só um fato natural. Mas a gente se revolta. A gente chora. A gente pergunta. E essa revolta é uma pista. Ela aponta que o sistema saiu dos eixos.
A Bíblia chama isso de “criação geme” (Romanos 8.22, NAA). Não é um castigo aleatório. É um ecossistema quebrado, aguardando resgate. Enquanto o definitivo não chega, vivemos no provisório. E é nesse intervalo que os milagres acontecem. Não como consertos finais, mas como sinais de que o Autor da história ainda está escrevendo. O sofrimento não é o roteiro original. É um acidente de percurso. E o fato de você não aceitá-lo prova que você ainda tem a memória do paraíso perdida no seu DNA.
O curativo que sustenta a viagem
Imagine que você está viajando e um dente quebra. Um dentista local faz um curativo provisório. Não é a solução final. É apenas o suficiente para você seguir viagem, sorrir, comer, aguentar o trajeto até chegar em casa e colocar a peça permanente. Se você insistisse em tratar o curativo como o conserto final, ele ia falhar. A metáfora é simples, mas carrega um peso espiritual enorme.
Os milagres de Jesus funcionam assim. São provisórios. São massinha colocada por mãos divinas no meio da dor para nos dar fôlego. Jesus curou o cego (João 9.6-7), mas o cego envelheceu. Jesus levantou o morto (Lucas 7.14-15), mas a morte voltou mais tarde. Se Ele resolvesse o sofrimento de forma permanente agora, estaria transformando um mundo temporário em eterno. E isso quebraria o plano maior. Os sinais não são o destino. São bússolas. Eles gritam: “O definitivo vem. Aguenta firme.”
Quando Deus cura hoje, Ele não está encerrando a história. Ele está garantindo que você tenha força para caminhar até o dia em que nenhuma lágrima vai precisar de explicação (Apocalipse 21.4).
Quando a lógica do Pai encontra a nossa dor
Mas a teoria esfria quando a tragédia é sua. E se o diagnóstico for seu? E se o amigo se salvar e você não? A sensação de injustiça é visceral. Ninguém quer uma explicação acadêmica quando o chão some. É aqui que a fé deixa de ser um conceito e vira relacionamento.
Você já tratou dois filhos de formas diferentes. Um precisou de colo no meio da noite. O outro precisou de firmeza para aprender a cair. Um levou remédio. O outro levou tempo. Se eles confiam no pai, não medem o amor pelo método, mas pela intenção. Com Deus é igual. Ele não é um distribuidor de favores aleatórios. Ele é Pai (Mateus 6.9). E um Pai que enxerga o fim da história age com precisão cirúrgica, mesmo quando a gente só vê o fragmento.
Paulo escreveu: “Para mim, os sofrimentos do tempo presente não são dignos de serem comparados com a glória a ser revelada em nós” (Romanos 8.18, NAA). Não é para minimizar a dor. É para ampliar a perspectiva. O que parece abandono, muitas vezes, é preparo. O que parece silêncio, é trabalho nos bastidores da eternidade. A justiça humana quer respostas imediatas. A justiça divina está tecendo uma realidade que não rasga.
Como carregar o provisório sem amargurar
Não adianta romantizar a dor. Nem fingir que o curativo não incomoda. Mas dá para escolher como carregar esse peso.
• **Pare de cobrar do provisório o que só o definitivo pode entregar.** Milagres são alívio, não o ponto final. Espere o fim sem desprezar o presente. “Tudo tem o seu tempo determinado” (Eclesiastes 3.1).
• **Seja o curativo de alguém.** Se Deus usa sinais temporários para sustentar, você pode ser as mãos que seguram, o ouvido que escuta, o gesto que alivia. “Levai as cargas uns dos outros” (Gálatas 6.2). A fé que não vira cuidado vira só teoria.
• **Treine o olhar para o eterno.** Quando a angústia apertar, lembre: o parêntese vai fechar. A dor não é o ponto final. É vírgula. “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória” (2 Coríntios 4.17).
Fechamento
Deus não cura todos agora porque Ele já venceu a morte para sempre (1 Coríntios 15.54-55). Enquanto o definitivo não chega, Ele deixa sinais no caminho para ninguém desistir da viagem.
Na próxima vez que a dúvida ou a dor apertarem, não peça para Deus provar que está lá. Peça a Ele a coragem de confiar no Pai enquanto o provisório ainda sustenta seus passos. “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará” (Salmos 23.1).
Este artigo foi escrito com base numa conversa entre um teólogo Rodrigo Silva e um doutor em Geociencia Sergio Sacani.











