“Quem repudiar a sua mulher e casar com outra comete adultério; e aquele que casa com a mulher repudiada pelo marido também comete adultério.” — Lucas 16:18
O divórcio, e especialmente o novo casamento, é um assunto polêmico, por mais que aqueles que têm uma opinião firme insistam em dizer que é fácil. Em nossa irmandade, há pelo menos quatro posições sobre como lidar com essa tragédia que, de tempos em tempos, vemos ocorrer em nosso meio.
Seria fácil se nós, seres humanos, fôssemos fáceis, mas não somos. A definição seria simples, de fato, porque a Palavra de Deus é clara a respeito do assunto. Basta voltar ao início, no livro de Gênesis:
“Por isso, o homem deixa pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” — Gênesis 2:24
Essas palavras são reforçadas pelo próprio Senhor Jesus:
“Jesus respondeu: — Vocês não leram que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: ‘Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne’? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, que ninguém separe o que Deus ajuntou.” — Mateus 19:4-6
No entanto, quando os fariseus o indagaram sobre o motivo de Deus, por meio de Moisés, ter permitido que um homem desse carta de divórcio à sua esposa, eis a resposta do Senhor:
“Jesus respondeu: — Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés permitiu que vocês repudiassem a mulher, mas não foi assim desde o princípio.” — Mateus 19:8
O ser humano tem um coração duro. Lembro-me de casais que, durante o namoro e no começo do casamento, dirigiam um ao outro palavras de ternura, de compreensão e de admiração.
Algum tempo depois, cada um consegue olhar no outro somente os defeitos — e de fato todos nós os temos —, a ponto de eu já ter ouvido frases como: “vai morar com ele(a) para você ver a peça”.
Ou, no caso de cristãos: “se eu tiver que ir para o inferno por me separar dele(a), eu prefiro. Ele(a) é insuportável.”
A Bíblia aborda o divórcio em vários textos, como, por exemplo, no livro de Malaquias, no qual Deus diz que odeia o divórcio, ou repúdio (Malaquias 2:16). Porém, quero ater-me aos textos da Nova Aliança.
No texto de hoje, Jesus é claro: quem se divorciar e casar de novo comete adultério. Para aqueles que advogam não haver exceção nenhuma, esse texto cai como uma luva.
Porém, o Novo Testamento não é formado somente por Lucas. Há outros textos, como o paralelo de Mateus, no qual existe a chamada exceção:
“Eu, porém, lhes digo: quem repudiar a sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério.” — Mateus 19:9
A maioria dos estudiosos, com base nesse texto, afirma que o adultério é a única exceção tolerada por Jesus para uma pessoa casar-se novamente. Apesar de o texto nada falar sobre novo casamento, a conclusão de boa parte dos estudiosos da Bíblia é que a autorização está implícita.
Outra exceção, em 1 Coríntios 7:10-11, desta vez para a separação, ocorre quando o cristão é abandonado pelo cônjuge não cristão.
Como alguém que já passou por essa catástrofe, eu afirmo: o divórcio é uma tragédia, uma das piores na vida de uma pessoa, especialmente para alguém que ama a Jesus e a sua Palavra. É uma ferida que nunca cicatriza totalmente.
Por esse motivo, insisto tanto com casais em crise: não há preço excessivo nem sacrifício grande demais para esforçar-se por manter o casamento através do perdão, da paciência e, especialmente, do amor a Deus e à sua Palavra.
Mas, e para quem já passou por essa tragédia e está num novo casamento?
Se o motivo foi o adultério do ex-cônjuge, filio-me ao pensamento daqueles que pregam que Jesus tolera esse tipo de divórcio. Ele não manda, ele tolera. Pois, em todos os casos, o perdão sempre é a melhor solução. Nos demais, não importa o motivo, há adultério. E ponto.
Parte dos irmãos entende que uma pessoa que se divorcia e casa novamente, se não foi em razão do adultério anterior do ex-parceiro, está em adultério permanente e, no dia do Juízo Final, perderá a sua alma, estando perdida no inferno.
Será mesmo que existe um pecado imperdoável desta forma? Outros dizem que Deus perdoa, desde que haja arrependimento.
Mas, para esses mais firmes em suas teses, o arrependimento seria voltar para o primeiro cônjuge ou permanecer sozinho. E se o primeiro cônjuge não quer voltar ou está em outro casamento? “Fiquem sozinhos”, dizem estes.
É fácil decidir e julgar a vida do outro quando não se está passando pela situação. Muitos que tinham esse tipo de pensamento mudaram de ideia quando a tragédia ocorreu na sua vida ou na de pessoas muito próximas, como filhos.
Acredito piamente que a vontade de Deus é que uma pessoa case e fique com seu cônjuge até que a morte os separe. No entanto, nem sempre, por diversos motivos, isso vai acontecer. O que fazer?
Se você passou ou está passando por isso, fique um bom tempo sozinho, orando e colocando sua situação diante de Deus. Ele é poderoso para restaurar relacionamentos.
E se já está em um novo relacionamento? Pense nas possíveis consequências eternas e decida POR VOCÊ, através de seu estudo da Palavra e oração a Deus.
Você pode até se aconselhar com pessoas. Procure cristãos sábios, não somente um, mas saiba que ouvirá opiniões tão diferentes — algumas extremamente duras e outras muito brandas — que ficará ainda mais confuso.
Sugiro dois bons livros sobre o assunto: “Esperança para os separados”, de Gary Chapman, e “Antes de dizer Adeus”, de Jaime Kemp. Estou lendo atualmente o livro “As quatro estações do casamento”, de Gary Chapman. Quem está vivendo a fase de separação ou divórcio está vivendo o inverno no casamento, e o livro traz boas sugestões.
Será que existe um pecado imperdoável, como dizem os defensores da tese mais dura sobre o divórcio e o novo casamento? Biblicamente falando, sim: somente ser encontrado no dia do Juízo Final fora de um compromisso com Jesus, ou seja, abandonar a fé. Pensemos nisso.
Conheço pessoas divorciadas e casadas novamente que, como disse, até hoje sofrem por não terem agido de acordo com o padrão de Deus para o casamento. Somente Deus conhece os “bastidores” da vida de uma pessoa e as razões mais profundas de suas ações.
Nosso julgamento humano é sempre parcial, pois conhecemos somente o que vimos ou ouvimos. Como disse, Deus conhece os bastidores.
Por fim, aprecio o que disse Davi após cometer um pecado e sofrer as consequências:
“Então Davi disse a Gade: — Estou muito angustiado. Porém é preferível que caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas misericórdias; não quero cair nas mãos dos homens.” — 2 Samuel 24:24
Davi foi um daqueles que pecou feio: adulterou com Bate-Seba, mentiu, matou o marido dela e pagou dolorosamente por seu ato impensado. A vida de Davi pode ser dividida em antes e depois do seu terrível pecado. As consequências perduraram por praticamente todo o restante de sua vida.
Mas vejamos o que Deus disse após ele reconhecer o seu erro:
“Então Davi disse a Natã: — Pequei contra o Senhor. E Natã respondeu: — Também o Senhor perdoou o seu pecado; você não morrerá.” — 2 Samuel 12:13
“Então Davi consolou Bate-Seba, sua mulher. Teve relações com ela, e ela teve um filho, a quem Davi deu o nome de Salomão; e o Senhor o amou.” — 2 Samuel 12:24
Deus matou o filho resultado do adultério de Davi e Bate-Seba, mas amou o filho seguinte, concebido após o arrependimento do rei.
Para todos os que passaram pelo divórcio e novo casamento — não me aterei aos motivos —, como eu passei, a realidade é esta: rompemos com o padrão de Deus, e não podemos negar isso.
Porém, jamais abandonemos o nosso Deus, mesmo se passarmos pelo julgamento dos outros, inclusive de irmãos em Cristo.
No dia do Juízo Final, seremos nós e Deus. E, acompanhados do Salvador Jesus Cristo, por causa do seu sangue derramado na cruz, nenhuma condenação haverá (Romanos 8:1) para aqueles que permanecem olhando para Jesus, a despeito de suas quedas.
Vamos, todos os dias, buscar conhecer a vontade de Deus e nos esforçar, utilizando o poder do Espírito Santo, para vivermos cada vez mais conforme o padrão dele.
Mas sabedores que nenhum de nós merecerá o céu no dia do Juízo Final. Nossa salvação será por causa do amor e da misericórdia divinos.












