esperança

Esperando Contra a Esperança

“Como está escrito: ‘Eu o constituí por pai de muitas nações’ — diante daquele em quem Abraão creu, o Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem. Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe havia sido dito: ‘Assim será a sua descendência.'” (Romanos 4:17-18)

Há momentos na vida em que a esperança humana chega ao limite. Os recursos acabam, as forças diminuem e as circunstâncias parecem declarar que não há mais saída. Foi exatamente nesse cenário que a fé de Abraão brilhou.

Paulo nos leva a olhar para um homem que aprendeu a confiar não naquilo que via, mas no Deus em quem cria. Abraão não apenas acreditou em uma promessa; ele creu no Deus da promessa.

O texto começa lembrando a mudança de seu nome. Em Gênesis 17:5, Deus disse: “Não te chamarás mais Abrão, e sim Abraão; porque por pai de numerosas nações te constituí.”

Abrão significa “pai exaltado”, mas Abraão significa “pai de muitas nações” ou “pai de uma multidão”. O impressionante é que Deus lhe deu esse nome quando ele ainda não tinha o filho prometido. Aos olhos humanos, aquilo parecia contraditório. Como alguém sem descendência poderia ser chamado pai de multidões?

Mas Deus costuma anunciar Seu propósito antes do cumprimento da promessa. Ele vê o fim desde o começo:
“Desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade revelo as coisas que ainda não sucederam. Eu digo: o meu conselho permanecerá em pé, e farei toda a minha vontade.” (Isaías 46:10)

Paulo então descreve o Senhor como “o Deus que vivifica os mortos”. Isso é profundamente significativo, porque Abraão e Sara já estavam, humanamente falando, impossibilitados de gerar filhos. Romanos 4:19 dirá que o patriarca considerou “o seu próprio corpo amortecido”, tendo quase cem anos, e também “a idade avançada de Sara”.

Tudo apontava para esterilidade, limitação e impossibilidade. Porém, Deus é especialista em trazer vida onde não existe mais expectativa humana. O ventre de Sara não era obstáculo para o Senhor. A idade de Abraão não limitava o Seu poder. O Deus que mais tarde ressuscitaria Jesus dentre os mortos já estava demonstrando Seu poder vivificador na história do patriarca.

Paulo acrescenta ainda que Deus “chama à existência as coisas que não existem”. O Senhor não depende das circunstâncias para realizar a Sua vontade. Ele criou os céus e a terra pelo poder da Sua Palavra (Gênesis 1; Salmo 33:6).

“Também a minha mão fundou a terra, e a minha destra estendeu os céus; quando eu os chamo, eles aparecem juntos.” (Isaías 48:13)

A promessa feita a Abraão parecia inexistente no mundo visível, mas já era realidade no propósito eterno de Deus.

É nesse contexto que surge a poderosa expressão: “Esperando contra a esperança, creu.”

A ideia do texto original é que Abraão continuou esperando quando toda esperança natural havia desaparecido. A esperança humana dizia: “não é possível”. O corpo dizia: “acabou o tempo”. As circunstâncias diziam: “é tarde demais”. Mas a fé dizia: “Deus prometeu” e “Deus é poderoso para cumprir”.

Essa fé já havia sido demonstrada muitos anos antes, quando Deus chamou Abraão em Gênesis 12:1-4:
“Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai para a terra que te mostrarei.”

Hebreus 11:8 afirma que ele partiu “sem saber para onde ia”. Abraão deixou sua segurança, sua terra e suas referências porque confiou inteiramente na Palavra do Senhor. Ele caminhou sem enxergar o caminho completo, mas conhecendo Aquele que o havia chamado.

E então Paulo conclui: “Assim será a tua descendência.”

Essa promessa ultrapassa Isaque e alcança todos os que vivem pela fé. Romanos 4:16 afirma que Abraão é “pai de todos nós”. Em Cristo, fomos incluídos nessa descendência espiritual:

“Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão.” (Gálatas 3:7)

“E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa.” (Gálatas 3:29)

Essa verdade transforma nossa maneira de viver. Nós também somos chamados a esperar contra a esperança. Não porque ignoramos a realidade, mas porque conhecemos o Deus que está acima dela.

Talvez existam situações em nossa vida que pareçam sem solução. Talvez haja promessas pelas quais estamos esperando há anos. Talvez existam áreas “mortas” dentro de nós — sonhos, forças, projetos, esperança. O texto de hoje nos lembra que Deus continua sendo especialista em operar justamente onde a capacidade humana termina.

A fé cristã não é negação da realidade; é confiança na soberania de Deus acima da realidade visível.

Lições práticas para nossa caminhada:
• A verdadeira fé se apoia no caráter de Deus, não nas circunstâncias.
• Deus frequentemente trabalha além dos limites humanos para que a Sua glória seja manifesta.
• Esperar pela promessa não significa passividade, mas perseverança confiante.
• O tempo de Deus nunca destrói a Sua fidelidade.
• O que parece impossível aos homens continua sendo plenamente possível para Deus (Lucas 1:37).
• Em Cristo, fazemos parte da descendência de Abraão e herdamos as promessas pela fé.

Abraão descobriu que a última palavra nunca pertence às circunstâncias, mas a Deus. E o mesmo continua sendo verdade hoje. O Senhor ainda vivifica os mortos, ainda chama à existência as coisas que não existem e ainda honra aqueles que decidem confiar nEle.

“Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel.” (Hebreus 10:23)