É um dia comum na grande Metrópolis. Clark Kent ajusta os óculos, alisa o cabelo e caminha para o escritório. Ninguém desconfia. Para o mundo, ele é apenas um funcionário comum, tímido, que bate ponto das nove às cinco. Mas, lá no fundo, ele é Superman. Ele tem o poder de salvar vidas, de mudar destinos, de fazer o impossível.
O problema é que ele passa a semana inteira fingindo que não tem poder nenhum.
Só quando a sirene toca e o perigo é iminente, ele corre para a cabine telefônica, rasga a camisa social e veste o traje de herói. Enquanto isso, o mundo continua sofrendo porque o herói estava ocupado demais tentando parecer normal.
Soa absurdo quando falamos de um super-herói, não é? Mas e se eu te disser que muitos de nós estamos fazendo exatamente a mesma coisa com a nossa fé?
O Disfarce da Segunda-feira
Existe uma dinâmica silenciosa que acontece em muitas igrejas. No domingo, vestimos nosso “traje de super-cristão” tem até um grande “S” estilizado na camisa. Cantamos alto, dizemos “Amém“, abraçamos os irmãos e nos sentimos poderosos na presença de Deus. A fé parece vibrante, viva e inabalável.
Mas aí chega a segunda-feira de manhã.
O despertador toca e, junto com ele, vem a vontade de esconder quem somos. No carro, o louvor dá lugar ao noticiário. No elevador da empresa, evitamos qualquer assunto que cheire a “religião“. No intervalo do almoço, rimos das mesmas piadas (mesmo que imorais), reclamamos dos mesmos problemas e agimos como se a esperança que cantamos no domingo não existisse.
Nós colocamos os óculos do Clark Kent e vivemos disfarçados e ninguém desconfia que a força da esperança se esconde atrás de uma armação barata comprada numa ótica qualquer.
Não é maldade. É medo. Medo de ser julgado. Medo de parecer estranho. Medo de que, se as pessoas soubessem o que realmente acreditamos, nos olhem diferente. Então, botamos a fé no bolso e seguimos o fluxo.
O problema é que um herói disfarçado não salva ninguém.
A Zona de Conforto Espiritual
Aqui está a ironia que dói: muitas vezes, só falamos de Jesus quando estamos entre outros cristãos. Exatamente quem não precisa ouvir mais.
Na reunião de pequeno grupo, somos fluentes na linguagem de Canaã. Sabemos os versículos, entendemos as gírias, compartilhamos as vitórias. Estamos “flexionando” os músculos espirituais. Estamos seguros. Ali, ninguém vai nos chamar de louco. Ali, todos concordam que Deus é bom. Até temos a coragem de contradizer um irmão e sua opinião, mas não nos posicionamos para o mundo.
Mas e fora dali?
Quando o colega de trabalho está chorando no banheiro porque recebeu um diagnóstico difícil, nós oferecemos um “tudo vai passar” genérico, mas esquecemos de oferecer a razão da nossa esperança. Quando o amigo da faculdade pergunta por que você não bebe ou não age como todo mundo, dizemos que é “opção pessoal“, em vez de falar sobre transformação.
Nós acabamos falando mais sobre Jesus para quem já conhece Jesus do que para quem precisa desesperadamente conhecê-Lo.
É como se o Superman passasse o dia treinando com outros Supermans na fortaleza secreta, enquanto a cidade lá fora está sendo destruída pelo pior inimigo. De que adianta ter poder se ele fica trancado no cofre? E temos um poder de fazer infinitamente mais do que todo mundo precisa ou pede e este poder realmente está dentro de nós (Ef 3:20), mas só queremos mostrar e usar este poder na igreja (Ef 3:21).
Por Que Tiramos os Óculos?
Você pode estar pensando: “Mas eu não quero ser inconveniente. Não quero ser aquele chato que fica pregando no trabalho.” ou “É proibido falar de religião no ambiente de trabalho“.
E você tem razão. Ninguém gosta de inconveniência. Mas há uma diferença gigante entre ser inconveniente e ser autêntico. Nós devemos ser discípulos de Jesus, não devemos ser como eles que não tem poder nenhum e vivem sem esperança.
Ser Clark Kent é viver uma mentira. É cansativo manter dois personagens. Um no domingo, outro na segunda. Essa divisão cria uma fratura na alma. Gera uma sensação constante de impostura. Como se sua fé fosse apenas um hobby de fim de semana, e não a essência de quem você é ou deveria ser.
A verdade é que você não veste Cristo como uma roupa. Você é de Cristo.
Se você é sal, não precisa tentar ser salgado. Você já é. O sal que não salga não serve para nada, a não ser para ser jogado fora. Se você é luz, não precisa se esforçar para brilhar; precisa apenas parar de se esconder debaixo do cesto. E não adianta se disfarçar ou tentar se esconder, você não vai conseguir.
Jesus foi claro em Mateus 5:16:
“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.”*
Note que Ele não disse “para que vejam seus discursos“. Ele disse “boas obras“. A luz não faz barulho; ela apenas revela. Quando você age com integridade num ambiente corrupto, isso é luz. Quando você oferece paz num ambiente de ansiedade, isso é luz. Quando você ama quem não merece, isso é luz. Quando você age como Jesus porque você é membro do corpo de Cristo, isto é luz.
Tirar os óculos do Clark Kent não significa sair distribuindo panfletos na empresa ou na rua. Significa parar de esconder a fonte da sua força.
O Convite: Viva Sem Disfarces
Se você chegou até aqui, talvez tenha sentido um aperto no peito. Uma sensação de que tem desperdiçado oportunidades. De que tem vivido abaixo do seu potencial espiritual. Isso é bom. Significa que o Espírito está tocando você. Mas não saia daqui com culpa. Paralisado. A Graça transforma e deve começar em você.
Deus não precisa de um super-herói perfeito. Ele precisa de você, real, com suas falhas, mas disposto a não esconder d’Ele. Ele precisa de um homem que teme a criptonita do pecado, que na fraqueza a força vem do Senhor.
Como começar a tirar os óculos esta semana?
1. Pare de pedir desculpas por quem você é. Se alguém perguntar por que você não vai a tal evento, não invente uma desculpa esfarrapada. Diga com gentileza: “Não é meu estilo, prefiro cuidar da minha vida espiritual”.
2. Ouça mais, fale na hora certa. Em vez de tentar “vender” Jesus, esteja presente na dor do outro. Quando a porta se abrir, você saberá. A oportunidade surge quando há confiança. Pode ser que você tenha perdido ou ainda vá perder alguma oportunidade, mas faz parte do treinamento para poder aproveitar outra oportuidade que se abrirá.
3. Integre, não separe. Não existe vida secular e vida sacra. Tudo é espiritual. Seu trabalho, seu estudo, seu lazer. Faça tudo como para o Senhor. Isso muda sua postura, sua ética e seu brilho no olhar.
Uma Última Reflexão
O mundo não precisa de mais religiosos usando máscaras de santidade e uma camiseta estampando uma filosofia religiosa. O mundo está faminto por pessoas reais que encontraram algo verdadeiro e não têm vergonha de viver isso.
Daqui a dez anos, ninguém vai lembrar das suas roupas de domingo. Ninguém vai lembrar se você gaguejou ao orar em público. Mas as pessoas vão lembrar de como você as tratou quando ninguém estava olhando. Vão lembrar que, no meio do caos, você tinha uma paz que não fazia sentido lógico.
E elas vão perguntar: “Por que você é diferente?“
Nesse momento, você terá uma escolha. Continuar com os óculos escuros e dizer “ah, eu sou assim mesmo“. Ou olhar nos olhos delas, tirar o disfarce e dizer: “Não sou eu. É Ele em mim.”
Não seja Clark Kent. O mundo não precisa de um disfarce. Precisa de você.
Pare de se esconder. Sua luz foi feita para ser vista.











