Um ano complicado
Nunca imaginei que 2021 fosse o ano em que perderia ao mesmo tempo meu pai e minha mãe. No dia 1º de março, ao atravessar uma movimentada rua da cidade onde moro, Guarulhos, meu pai foi atropelado. Não se sabe se por falta de atenção dele, culpa do motorista ou um pouco de ambos, o acidente deixou meu pai em coma por 15 dias no hospital, falecendo no dia 16.
Em razão disso, minha mãe foi morar com minha irmã em Goiânia. Por 15 dias esteve muito bem quando, em razão de um AVC, foi internada. Pouco mais de duas semanas depois, em 14 de junho, também partiu.
A dor da perda de um ente querido
Às vezes, num velório, já falei para quem perdia seu ente querido: “imagino a sua dor”. Não, depois dessas 2 perdas, ninguém imagina a dor em perder uma pessoa amada.
Quando perdi meu pai, durante o processo, fiquei anestesiado. Porém, depois de alguns dias, a dor foi forte, período de muita tristeza e angústia. Mas, com o tempo, foram diminuindo. Agora, perder os dois me dá uma sensação de abandono. Mesmo não dependendo mais deles em termos físicos, emocionalmente perder pai e mãe parece que tirou minha segurança. Uma sensação de abandono de que estou sozinho no mundo. Assim, entendo que somente quem sofre a situação pode mesmo confortar outro que passa por aquela experiência, conforme nos ensina Paulo.
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação!
É ele que nos consola em toda a nossa tribulação, para que, pela consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que estiverem em qualquer espécie de tribulação.” – 2 Coríntios 1:3-4
Cada um reage de uma maneira
Sempre que algum irmão, amigo ou conhecido perdia alguém amado, colocava-me a disposição para conversar. Oferecia meu ouvido para ouvir a pessoa falar de sua dor e achava estranho quando alguns diziam que preferiam sofrer sua dor sozinhos.
Agora entendo isso. Durante minhas perdas, vários irmãos ofereceram ajuda, queriam visitar-me, se dispuseram a me ouvir. E sempre precisei ser ouvido em meus momentos de dor. Desta vez foi diferente. Não fiz questão de ter pessoas por perto e preferi sofrer minha dor em minhas caminhadas de manhã e abri-me para Deus durante elas. Nem eu mesmo me reconheci, pois normalmente estaria carente de ser ouvido por pessoas.
Desta forma, entendo agora que cada pessoa tem uma forma de reagir diante sua perda e devo respeitar e compreender. Não podemos julgar alguém por chorar muito ou outro por quase não chorar. Cada um sofre suas perdas de uma forma.
A importância do corpo de Cristo nessa hora
Mesmo conversando com poucas pessoas, recebi centenas de mensagens no WhatsApp e no Facebook. Pessoas a quem conhecia apenas de nome, mandaram suas condolências, seu apoio e sua palavra de carinho.
Entre todos esses, destaco os irmãos em Cristo que, por me conhecerem melhor, falaram palavras que tanto tocaram o meu coração. Aconteceu exatamente o que Paulo diz.
“De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, todos os outros se alegram com ele.
Ora, vocês são o corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo.” – 1 Coríntios 12:26-27
Sim, precisamos do corpo de Cristo, uns dos outros, em todos os momentos, especialmente nas tristezas que a vida nos proporciona.
A presença no velório e sepultamento
No velório e sepultamento do meu pai, por ser aqui em Guarulhos, vários amigos e irmãos estiveram presentes. Já estive presente em vários velórios e chegava ali mesmo sem entender a importância da minha presença naquele momento de dor. Pois agora entendi. Cada pessoa presente, um abraço (ou quase ele, em razão da pandemia) foi de grande importância. Não são as palavras ditas (são bem repetitivas), mas a presença das pessoas, que deixaram seus afazeres para estarem comigo e minha família.
Agora compreendo melhor ainda a importância de estar presente no velório e/ou sepultamento. A presença física é muito importante e somente quem está sofrendo a dor consegue entender.
No sepultamento de minha mãe, por ser longe, somente estavam meus familiares e isso foi muito sentido por mim. Tivemos que no consolar uns aos outros.
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Durante a vida dos meus pais, dentro do meu possível, estive presente, os auxiliei no que pude. No entanto, creio que especialmente nós filhos, na morte de nossos pais, sempre vem um sentimento de que poderíamos ter feito mais, amado mais, aproveitado melhor as oportunidades.
Em razão da pandemia, nos últimos encontros com minha mãe, evitei abraçá-la, apenas segurando sua mão. Esta semana tive, por vários momentos, desejo de abraçá-la e nesses momentos, lágrimas brotaram.
Não tenho sentimento de culpa quanto aos meus pais, mas, sim, claro que poderia os ter amado de maneira mais completa, honrado mais, ter aproveitado mais o tempo com eles. Por isso, o trecho da música citada acima resume bem o que precisamos fazer. Aproveitar todas as oportunidades com nossos queridos para amá-los, abraçá-los, declarar o quanto são amados, algo que fiz pouco com meus pais este ano e hoje sinto que deveria ter feito mais. O amanhã pode não existir.
Conclusão
No meio de tudo, ficam as boas recordações de momentos vividos com meu pai, dos quais, quero destacar dois.
“Doutor Marcheti, este é meu filho Valdir, um bom menino. Por favor, dê uma chance a ele”.
Este foi o texto que meu pai mandou que eu entregasse a meu futuro patrão, pedindo que me admitisse como seu funcionário. Na época, eu tinha 17 anos. E, sim, de lá para cá, muitas das vezes que deixei de fazer algo errado, foi no desejo de ser o “bom menino” que meu pai sempre enxergou em mim.
“Valdir, meu filho, não faça isso, é errado. Pessoas corretas não fazem esse tipo de coisa”.
Esta foi a repreensão de minha mãe quando, com cerca de 8 anos, fiz a ela um ato obsceno que um colega bem mais velho que eu tinha ensinado. Levei muitas surras de minha mãe, uma mulher muito enérgica. Não lembro do motivo da maioria delas. Mas, naquele dia, ela agiu diferente e aquelas palavras firmes e amorosas dela estiveram na minha mente nos últimos 40 anos, ajudando-me a procurar tomar decisões que pessoas corretas devem sempre tomar.
Por tudo isso, muito obrigado, Sr. José, meu pai, e dona Dijanira, minha mãe, por todo o amor que sempre tiveram para comigo e meus irmãos. Em minhas lembranças está viva, tantas e tantas vezes, a cena de meu pai me carregando no ombro, levando-me ao hospital, pois sequer tinha dinheiro para o ônibus e, claro, acompanhado e apoiado por minha mãe.
Muito obrigado, meus pais. Sempre os amarei.











