Uma pergunta frequentemente feita por pessoas sinceras que desejam seguir a vontade de Deus é: “Quais são as doutrinas da Igreja de Cristo?”
À primeira vista, a pergunta parece adequada, mas ela pode ser formulada de maneira ainda mais precisa: Quais são as doutrinas encontradas no Novo Testamento que uma comunidade deve preservar para ser identificada como a igreja fundada por Jesus Cristo?
A razão dessa reformulação é simples. A igreja não possui doutrinas próprias. As doutrinas pertencem a Deus e foram reveladas por meio de Cristo e dos apóstolos. A igreja não é a fonte da verdade; ela é sua guardiã e proclamadora (1 Timóteo 3:15).
Portanto, quando buscamos identificar a igreja fundada por Jesus, não devemos começar por tradições humanas, costumes denominacionais ou preferências pessoais. Devemos retornar às Escrituras e perguntar: Quais características o Novo Testamento apresenta como essenciais para a igreja do Senhor?
A seguir, examinaremos dez doutrinas fundamentais.
1. A Autoridade Suprema das Escrituras
A primeira marca da igreja de Cristo é sua submissão absoluta à Palavra de Deus.
Paulo declarou: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino” (2 Timóteo 3:16).
A igreja do Senhor reconhece que a Bíblia é a autoridade final em matéria de fé e prática. Nenhum credo humano, concílio, tradição, escrito antigo ou líder religioso possui autoridade superior às Escrituras.
Por essa razão, os restauracionistas frequentemente afirmaram: “Falemos onde a Bíblia fala; calemos onde a Bíblia cala.”
Sem autoridade bíblica, não existe restauração verdadeira. Sempre que a vontade humana substitui a vontade revelada de Deus, a igreja perde sua identidade apostólica.
2. A Igreja Vive Sob a Nova Aliança de Cristo
Na última Ceia, Jesus declarou: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue” (Lucas 22:20).
O escritor aos Hebreus acrescenta: “Quando ele diz: Nova, torna antiquada a primeira” (Hebreus 8:13).
Isso não significa desprezar o Antigo Testamento. Pelo contrário, ele continua sendo Palavra de Deus e permanece valioso para ensino, advertência e edificação espiritual. Entretanto, a igreja não está debaixo da antiga aliança estabelecida por meio de Moisés.
Consequentemente:
– Não possuímos sacerdócio levítico.
– Todos os cristãos são sacerdotes diante de Deus (Apocalipse 1:6; 1 Pedro 2:9).
– Não temos um sumo sacerdote humano.
– Nosso único Sumo Sacerdote é Jesus Cristo (Hebreus 4:14).
– Não encontramos no Novo Testamento a obrigação do dízimo mosaico.
– Encontramos contribuições voluntárias, proporcionais e generosas (1 Coríntios 16:1-2; 2 Coríntios 9:7).
– Não seguimos as festas religiosas da Lei de Moisés como obrigação espiritual.
– Não utilizamos funções ou títulos próprios da antiga aliança, como “levita”, para definir ministérios da igreja.
A igreja aprende com o Antigo Testamento, mas é governada pelo Novo Testamento.
3. Jesus Cristo é o Centro da Igreja
Quando Jesus perguntou aos discípulos: “Quem vocês dizem que eu sou?” (Mateus 16:15), Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.”
Então Jesus declarou: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (Mateus 16:18).
A igreja existe porque Jesus é o Messias prometido e o Filho de Deus. Sua identidade não está fundamentada em líderes humanos, sistemas religiosos ou estruturas organizacionais, mas na pessoa de Cristo.
Uma comunidade pode possuir boa organização, tradição respeitável e grande influência social, mas, se Cristo não ocupar o lugar central, ela deixa de refletir o propósito da igreja do Novo Testamento.
4. O Evangelho da Morte e Ressurreição de Cristo
A mensagem central da igreja é o evangelho. Paulo resume essa mensagem em 1 Coríntios 15:
– Cristo morreu pelos nossos pecados;
– Foi sepultado;
– Ressuscitou ao terceiro dia.
O evangelho não é um programa de prosperidade, uma filosofia moral ou uma proposta de transformação social. O evangelho é a boa notícia da obra redentora realizada por Cristo na cruz e confirmada pela sua ressurreição.
Todo grupo que deseja ser a igreja de Jesus e permanecer fiel ao Senhor deve manter essa mensagem no centro de sua pregação.
5. A Salvação Pela Graça Mediante uma Fé Obediente
A salvação é um dom da graça de Deus. Entretanto, o Novo Testamento ensina que a fé salvadora não é mera aceitação intelectual. Trata-se de uma fé que responde obedientemente ao chamado divino.
No livro de Atos, encontramos repetidamente pessoas:
– Ouvindo o evangelho;
– Crendo em Cristo;
– Arrependendo-se dos pecados;
– Confessando sua fé;
– Sendo batizadas;
– Permanecendo fiéis.
Em Atos 2:38, Pedro ordenou: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado.”
A graça de Deus é a causa da salvação. A fé obediente é a resposta humana à graça oferecida por Deus.
6. A Igreja Pertence a Cristo
Jesus declarou: “Edificarei a minha igreja” (Mateus 16:18).
A igreja pertence a Cristo porque foi comprada por seu sangue (Atos 20:28). Ela não pertence a um líder religioso, a uma organização humana ou a uma instituição terrena.
Cristo é o único cabeça da igreja (Efésios 1:22-23). Toda autoridade legítima dentro da igreja existe apenas em submissão à autoridade suprema do Senhor.
7. A Unidade dos Discípulos
Na noite anterior à sua morte, Jesus orou: “Para que todos sejam um” (João 17:21).
A unidade dos discípulos não é uma opção. É um desejo expresso pelo próprio Senhor. Essa unidade não deve ser construída à custa da verdade, mas pela submissão comum à verdade revelada.
Uma máxima frequentemente utilizada resume bem esse princípio:
– Nas questões essenciais: unidade.
– Nas questões opinativas: liberdade.
– Em todas as coisas: amor.
A igreja fundada por Jesus busca preservar simultaneamente a verdade e a unidade.
8. A Organização e as Práticas da Igreja Apostólica
A igreja do Novo Testamento não apenas cria corretamente, mas também funcionava segundo um padrão apostólico.
Entre suas práticas, encontramos:
– Ensino da Palavra;
– Oração;
– Comunhão;
– Evangelização;
– Ceia do Senhor;
– Batismo.
Também observamos uma adoração caracterizada pelo canto congregacional. Paulo escreveu: “Falando entre vós com salmos, hinos e cânticos espirituais” (Efésios 5:19). E ainda: “Ensinando e admoestando-vos uns aos outros” (Colossenses 3:16).
O autor de Hebreus descreve o louvor cristão como: “Fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15).
Quanto à liderança, encontramos no Novo Testamento:
– Presbíteros (ou bispos);
– Diáconos;
– Evangelistas.
Não encontramos a instituição de novos apóstolos com autoridade universal, nem títulos religiosos desenvolvidos posteriormente pela tradição humana. Além disso, a igreja não possui mulheres em sua liderança, em obediência ao ensinamento apostólico de 1 Coríntios 14:33-35 e 1 Timóteo 2:8-14.
A igreja procura reproduzir o modelo organizacional apresentado pelos apóstolos.
9. A Santidade Como Marca do Povo de Deus
A igreja não é apenas um povo perdoado. Ela é um povo transformado.
Pedro escreveu: “Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16).
A santidade envolve separação do pecado e dedicação a Deus. O propósito da graça não é apenas perdoar pecadores, mas formar discípulos que reflitam o caráter de Cristo.
Uma igreja fiel ao Senhor busca viver em pureza doutrinária e moral.
10. A Esperança da Volta de Cristo
Desde o seu nascimento, a igreja vive olhando para o futuro. Após a ascensão de Jesus, os anjos anunciaram: “Esse Jesus voltará” (Atos 1:11).
O Novo Testamento ensina que já vivemos sob o governo de Cristo. Fomos transportados para o seu reino (Colossenses 1:13), reinamos em vida por meio dele (Romanos 5:17) e estamos assentados com Cristo nas regiões celestiais (Efésios 2:6).
Contudo, aguardamos o dia em que o Senhor retornará. A volta de Cristo será um acontecimento único, glorioso e universal, associado à ressurreição dos mortos e ao juízo final (1 Coríntios 15; 1 Tessalonicenses 4:13-18).
Por fim, conforme ensina Paulo, Cristo entregará o reino ao Pai (1 Coríntios 15:24-28), consumando plenamente o plano redentor de Deus.
Conclusão
Como podemos identificar a igreja fundada pelo Senhor Jesus?
Não pela antiguidade de uma instituição, pelo tamanho de uma organização ou pela popularidade de seus líderes. A igreja de Cristo é identificada por sua fidelidade aos ensinos apostólicos revelados no Novo Testamento.
Ela reconhece:
1. A autoridade suprema das Escrituras.
2. A Nova Aliança como regra de fé e prática.
3. Jesus Cristo como Filho de Deus e Senhor.
4. O evangelho da morte e ressurreição.
5. A salvação pela graça mediante uma fé obediente.
6. A igreja como propriedade de Cristo.
7. A unidade dos discípulos.
8. A organização e as práticas apostólicas.
9. A santidade do povo de Deus.
10. A esperança da volta de Cristo.
Quando uma comunidade preserva esses fundamentos, ela demonstra seu compromisso em seguir o modelo estabelecido por Cristo e seus apóstolos, buscando ser, não uma igreja moldada pelas tradições humanas, mas a igreja que o Senhor prometeu edificar.
Por isso, ela pode se chamar Igreja de Cristo, mas não somente com esse nome; pode usar qualquer outro que mostre que pertence ao Senhor Jesus. Por isso, respondo: “Faço parte da igreja de Cristo, igreja de Deus, igreja de Jesus, Comunidade de Cristo, Assembleia de Jesus”, entre outros nomes que demonstram que pertencemos somente ao Senhor Jesus.
Nota: Mensagem ensinada na Reunião dos Jovens da Igreja de Cristo, nos Pimentas, Guarulhos/SP, que fizeram a pergunta do título.











