“Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?” — Lucas 13:16
Na leitura do artigo anterior, destaquei esse versículo e encerraria no comentário feito.
Porém, um amigo meu, que me dá a alegria de ler com frequência estas reflexões, fez um comentário que me ajudou a abrir a mente para outra aplicação. Agradeço ao Rodrigo Nogueira pelo comentário e incentivo você, que valoriza este nosso espaço, a deixar o seu também.
De fato, como comentei ontem, Satanás é a origem de todo o mal na terra, e por causa dele entraram no mundo a violência, a arrogância, a inveja — que fez a primeira vítima, Abel, ser morto pelo próprio irmão — e, pior ainda, a morte física e espiritual. Nesse sentido, o que melhor podemos fazer por uma pessoa para libertá-la é mostrar-lhe o antídoto trazido a este mundo pelo Senhor Jesus: o evangelho.
Porém, o comentário do meu amigo fez-me pensar em outra aplicação. Todos os dias encontramos pessoas sofrendo das mais variadas formas: presas a uma doença, muitas vezes espiritual e emocional, que precisam de um ouvido atento; outras passando por lutas em relacionamentos abusivos; outras ainda em casa, com filhos sendo mal influenciados por este mundo sem Deus.
Sim, quando vejo pessoas sofrendo, pulsa em meu coração o desejo de tirar ou, pelo menos, aliviar tal sofrimento. Por exemplo, quando vou visitar alguém num hospital, como gostaria de fazer como Jesus fez com a mulher relatada no capítulo 13 de Lucas: “E, impondo-lhe as mãos, ela imediatamente se endireitou e dava glória a Deus.” Ou como desejaria, diante de um velório, fazer o que Jesus fez com o filho da viúva na cidade de Naim: “Chegando-se, tocou no caixão, e os que o estavam carregando pararam. Então Jesus disse: — Jovem, eu ordeno a você: levante-se! O que estava morto sentou-se e passou a falar; e Jesus o restituiu à sua mãe.” (Lucas 7:14-15).
Porém, na minha impotência humana, nada disso posso fazer. No entanto, só o fato de ir ao velório dar um abraço nos familiares e amigos do falecido, ou ir ao hospital visitar a pessoa enferma, já irá, de alguma maneira, dar conforto aos familiares ou ao doente. Sei bem o que é isso. Há quatro anos perdi meu pai, e como foi importante receber a visita de amigos que não precisavam dizer nada — o que falar para confortar alguém que perde um ente querido? —, mas apenas um abraço, um olhar compreensivo. Na realidade, apenas a presença já é confortante.
Quase três meses depois da morte do meu pai, perdi a minha mãe, que estava morando em Goiás. No velório, estávamos apenas eu, meus dois irmãos e meu cunhado. Como foi difícil acompanhar aquele velório e sepultamento.
Por isso, precisamos ter com todos o mesmo sentimento que Davi teve para com o filho de seu amigo Jônatas, filho de Saul:
“Um dia Davi perguntou: — Será que resta ainda alguém da família de Saul, para que eu use de bondade para com ele, por causa de Jônatas?” — 2 Samuel 9:1
Davi, pela gratidão que tinha por Jônatas, queria demonstrar bondade a alguém de sua família — e assim o fez com seu filho Mefibosete. O mesmo sentimento precisamos ter em razão da gratidão pelas bênçãos de Deus em nossas vidas. A pergunta deve ser: “Há alguém criado à imagem e semelhança de Deus para quem eu possa usar de bondade?”
E sempre há: sentado ao nosso lado no ônibus, um vizinho, um colega de trabalho, alguém que encontramos na rua precisando de um olhar bondoso, uma palavra amiga, um ouvido atento e, claro, quando necessário, uma ajuda para fazer uma compra ou suprir uma necessidade física.
Esta semana ouvi uma música do Michael Jackson, cuja melodia sempre achei linda: a música “Heal the World”. Porém, emocionei-me ao ler a tradução: “Cure o mundo”. Sim, não temos condições de curar totalmente este mundo — tanto que o plano de Deus é destruí-lo quando da volta de Jesus.
Mas podemos aliviar as dores dos nossos semelhantes que sofrem e pensar na pergunta feita pelo Senhor Jesus: “Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?”
A razão dos religiosos da época de Jesus era imaginar que os rituais da lei de Deus impediriam de fazer o bem a uma pessoa — naquele caso, por causa do sábado. E nós, o que impede de aliviar a bagagem do nosso semelhante quando ela está muito pesada? Podem ser vários motivos: a começar por nossa impotência, como na morte de alguém; mas também a pressa, o egoísmo quando somos centrados em nós mesmos, o pequeno sacrifício de parar e ajudar alguém — como aconteceu com os religiosos da parábola do bom samaritano (Lucas 10:25-37) — ou a insensibilidade com a dor alheia.
Que hoje, ao sairmos de casa — ou mesmo em casa, com nossos amados —, tenhamos em nosso coração essa indagação perfeita de Davi:
“Será que resta alguém para que eu use de bondade para com ele?”
Sempre há. É só abrir os olhos do coração — que é tocado por Deus e cada vez menos centrado em si mesmo.











