Como você reage quando a pessoa com quem você conversa todos os dias, que ocupa o topo absoluto dos seus contatos favoritos no WhatsApp, envia uma mensagem que muda o rumo de tudo de uma hora para outra? O medo da perda é uma sombra universal, uma dor aguda que todos nós, em nossa humanidade, tentamos maquiar ou varrer para debaixo do tapete. Mas a verdade nua e crua é que a nossa existência terrena é incrivelmente volátil e incerta. A Palavra em Tiago 4:14 (NVI) expõe essa fragilidade com uma precisão que nos confronta: “Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa”. Foi exatamente essa neblina do cotidiano seguro que começou a se dissipar rapidamente quando meu irmão Edinho adoeceu.
A nossa conexão ia muito além do sangue; era uma história construída na convivência crua do dia a dia. Eu brincava que “Fui eu quem lhe ensinou quase tudo o que ele sabia. Meus pais trabalhavam intensamente, então essa tarefa recaiu sobre mim; não fizemos tudo perfeito, mas viver essa aventura lado a lado foi um dos maiores presentes da minha vida“.
A fé que sustentaria o Edinho no fim de sua vida foi plantada lá atrás. Lembro-me de quando ele tinha cerca de seis anos, ardendo em febre num sábado à noite, incapaz de se levantar. Minha mãe leu sobre a ressurreição de Lázaro; ele simplesmente dormiu e acordou curado no domingo de manhã, pronto para ir ao culto. Salmos 71:5 ecoava na vida dele muito antes da maturidade:
“Pois tu és a minha esperança, ó Soberano Senhor, em ti está a minha confiança desde a juventude”.
O Peso de uma Palavra e a Leveza da Entrega
O abalo sísmico começou de forma silenciosa e camuflada, com o que ele chamava brincando de uma teimosa “dor de barriga”. Ele sentia que o alimento não era processado, como se parasse e voltasse. Após buscar um gastroenterologista e realizar exames, o diagnóstico inicial apontou um processo ulceroso na saída do estômago. Foram dez dias de uma agonia escura esperando o resultado da biópsia. Quando o envelope foi aberto naquela sexta-feira, a palavra “carcinoma” estava lá, cravada no papel de forma fria e implacável. O baque humano foi gigante, mas a atitude imediata dele quebrou qualquer lógica humana de desespero. Ele orou dizendo: “Senhor, é duro, é difícil, mas está nas suas mãos” (foi uma frase que ele usou do começo do fim, ao começo da sua eternidade), e relatou que seu estresse simplesmente sumiu. Ele vivia, na prática e na dor, um dia de cada vez, a orientação de Provérbios 3:5-6:
“Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas”.
A Força Invisível em um Corpo Frágil
A partir daquele ponto, a guerra na trincheira do corpo físico tornou-se implacável. O Edinho outrora robusto começou a definhar rapidamente; perdeu quase vinte quilos, a palidez assumiu o rosto e a fraqueza o impedia de comer mais do que um punhado de alimento líquido por dia. No entanto, o contraste entre a falência física e a vitalidade espiritual era assustador. Sempre que uma multidão de irmãos perguntava com apreensão “Como está o Edinho?” , ele mantinha a mesma resposta serena: “Estou bem, porque estou tranquilo. Estou nas mãos de Deus“. Diante dessa fé granítica, passei a explicar às pessoas: “O Edinho está bem, mas o corpo dele não“. Ele olhava para os músculos que desapareciam e não se desesperava e ele encontra motivo para brincar com a gravidade. Um dia em que a pele ficou amarelada ele brincou que estava virando o Edinho Simpson. Ele incorporava visceralmente as palavras de 2 Coríntios 4:16:
“Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia”.
Nessa descida árdua, ficou evidente que Deus providencia âncoras de carne e osso para suportarmos as tempestades que não conseguimos vencer sozinhos. A doença uniu a igreja de forma estrondosa em oração , e dentro de casa, os anjos agiam em turnos:
A nossa irmã Tita, enfermeira forjada na oncologia, tornou-se a muleta indispensável nos dias em que o corpo dele falhava.
A nossa mãe, com a força de quem ama infinitamente, o carregou nos braços física e emocionalmente.
A Linda, o Jonatas e o Guilherme formaram um cordão de isolamento silencioso e parceiro, dividindo o peso insuportável das noites em claro.
Mesmo se contorcendo de dores no leito, ele olhava para nós e conseguia abrir um sorriso. É impossível testemunhar essa rede profunda de amor doando a própria vida e não ver a manifestação de Eclesiastes 4:9-10:
“É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas. Se um cair, o amigo pode ajudá-lo a levantar-se”.
As Últimas Conversas e a Verdadeira Chegada
Com o avanço brutal da doença, aquelas conversas diárias que fluíam fáceis pelo WhatsApp foram rareando, tornando-se pausas silenciosas e tristes. Numa de nossas últimas conversas marcantes no hospital, dividimos um sorvete ruim para tentar adoçar a amargura do momento, rindo no meio do choro. Olhei nos olhos dele e disse tentando lhe passar encorajamento e dizer que era hora de parar de lutar contra o corpo: “não dê crédito ao corpo, ele nos engana com a dor e não herdará o céu”. Pedi, com a humildade de um irmão mais velho que reconhece a grandeza do menor, que ele orasse por mim, pois sabia que ele estava a poucos passos do trono de Deus. Ele encontrou naquelas semanas difíceis o que Jesus prometeu em Mateus 11:28:
“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”.
O Edinho declarou inúmeras vezes que não tinha medo da morte, apesar da angústia do momento. Ele entendia de forma cristalina que sua salvação não era uma loteria atrelada à resistência do seu organismo, mas um fato consumado pelo sangue derramado de Jesus Cristo. Ele afirmava que, se Deus decidisse levá-lo naquele momento, ele não ficaria decepcionado. Quando ele descansou, num domingo — ironicamente o Dia do Senhor (um bom dia para encontrar com Jesus) —, a tristeza da saudade bateu de frente com uma paz inabalável. A fé incrustada na sua alma validou a promessa monumental que alicerça a nossa vida em João 11:25:
“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá”.
O câncer destruiu a matéria, mas falhou miseravelmente em tocar a alma; ele apenas acelerou a chegada do meu irmão à sua morada definitiva. Lembre-se desta verdade profunda: o discípulo de Jesus não parte, ele chega (dois grandes irmãos me falaram isso em momentos diferentes em dias de luto).
O Edinho foi apenas transferido da congregação daqui para a glória de lá. A dor de hoje deve ser filtrada pelas lentes de Romanos 8:18:
“Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada”.
Que a partida dele sacuda a sua perspectiva: pare de tentar controlar o incontrolável. Viva de forma tão intencional com Deus que, quando o seu dia chegar, a morte seja apenas o veículo que o levará em segurança de volta para casa.











