Aba, Pai: a voz da adoção

Aba, Pai: a Voz da Adoção

Texto base: Romanos 8:15

“Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai’.

Uma pequena palavra, um grande significado

Existem palavras que, embora curtas, carregam um significado profundo. Uma delas é “Aba“, preservada no Novo Testamento exatamente como foi pronunciada em aramaico, a língua falada por Jesus.

Logo em seguida, os escritores inspirados acrescentam sua tradução para o grego: “Pai“. Assim, a expressão “Aba, Pai” aparece apenas três vezes nas Escrituras: nos lábios de Jesus, no Getsêmani (Marcos 14:36), e nas cartas de Paulo, em Romanos 8:15 e Gálatas 4:6.

Não é por acaso que Paulo escolhe justamente essa expressão ao falar sobre a adoção. O Espírito Santo nos concede muito mais do que uma nova religião ou um novo conjunto de regras. Ele nos introduz em uma nova família. Deus deixa de ser apenas o Criador, o Legislador e o Juiz para tornar-se, também, nosso Pai.

O Espírito que nos introduz na família

Essa realidade também nos ajuda a compreender a importância do batismo. Na mensagem apostólica, o batismo está ligado ao arrependimento, à fé e ao recebimento do Espírito Santo (Atos 2:38). Não se trata simplesmente de um ritual externo, mas de uma resposta de fé pela qual somos unidos a Cristo em sua morte e ressurreição, conforme Paulo explica em Colossenses 2:12.

Ali, espiritualmente, somos sepultados com Cristo para uma nova vida. Aquele que antes estava distante de Deus passa a pertencer à família de Deus. Que privilégio!

“Aba” não é simplesmente “paizinho”

Ao longo dos anos, tornou-se comum afirmar que “Aba” significa “paizinho“. Embora essa interpretação tenha sido bastante popular, os estudos da língua aramaica mostram que a palavra não era usada apenas por crianças pequenas, mas também por filhos adultos ao se dirigirem ao pai.

Por isso, “Aba” não deve ser entendida como uma expressão infantil ou excessivamente informal. Ela carrega a ideia de intimidade, confiança, pertencimento e reverência.

Talvez uma maneira melhor de compreendê-la seja imaginar a voz de um filho que olha para seu pai e diz, com amor e segurança: “Meu Pai!

E isso me faz pensar em uma experiência muito especial. Que alegria sinto quando meu filho Josué se refere a mim como “meu pai“! Eu também me dirigia assim ao meu pai, hoje falecido. Afinal, a relação entre pais e filhos é uma das experiências mais profundas que temos nesta vida.

Quando Paulo coloca essa expressão em nossos lábios em relação a Deus, ele está nos mostrando algo extraordinário: fomos recebidos por Deus em uma relação verdadeira de filiação.

Não somos escravos dominados pelo medo

Essa compreensão se harmoniza perfeitamente com o contexto de Romanos 8. Paulo acaba de afirmar que “não recebemos um espírito de escravidão para viver outra vez atemorizados”.

O escravo vive dominado pelo medo. Não sabe se será aceito ou rejeitado. Obedece porque teme o castigo. O filho, porém, permanece na casa porque pertence à família. Sua obediência não nasce do terror, mas do amor, da gratidão e do reconhecimento de que aquele é o lugar ao qual pertence.

Isso não significa que o filho deixe de reverenciar o pai. Pelo contrário. A verdadeira intimidade não elimina o respeito. Podemos amar profundamente a Deus e, ao mesmo tempo, reconhecer sua santidade, majestade e autoridade.

É justamente essa combinação que encontramos em “Aba, Pai“: intimidade sem irreverência; confiança sem presunção; amor sem perda do temor de Deus.

Deus não apenas nos perdoou: Ele nos adotou

É exatamente por isso que Paulo afirma que recebemos “o Espírito de adoção“.

No mundo romano, a adoção era um ato jurídico solene. O filho adotado passava a fazer parte da família, recebia uma nova posição, tornava-se herdeiro legítimo e adquiria novos direitos e responsabilidades.

Paulo utiliza essa imagem para mostrar a grandeza daquilo que Deus fez por nós. Deus não apenas nos perdoou. Ele nos recebeu em Sua casa. Não apenas cancelou nossa dívida. Ele nos deu uma nova identidade. Não apenas nos libertou da condenação.

Ele nos fez parte de Sua família.

E essa família é numerosa. Somos muitos filhos reunidos em Cristo, formando a família de Deus, a igreja. Jesus é apresentado como o “primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29).

Entretanto, essa filiação só é possível por meio dele. João afirma: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (João 1:12).

Jesus é o Filho único em um sentido que ninguém mais possui. Nós somos filhos de Deus por adoção e pela graça, unidos ao Filho de Deus.

O clamor de quem sabe a quem pertence

Outro detalhe precioso está no verbo utilizado por Paulo: “clamamos“.

A palavra grega é krazō, que pode transmitir a ideia de gritar, clamar intensamente, levantar a voz em uma situação de profunda necessidade.

É o mesmo verbo empregado para descrever o clamor de pessoas que buscavam desesperadamente a ajuda de Jesus. E é também a palavra utilizada no relato do Getsêmani, quando o próprio Senhor diz: “Aba, Pai” (Marcos 14:36). Que privilégio extraordinário!

A expressão que esteve nos lábios de Jesus é colocada agora nos lábios daqueles que foram adotados por Deus. Não porque sejamos divinos como Cristo, mas porque, unidos a Cristo, recebemos o Espírito que nos conduz a essa relação filial de confiança com Deus. Isso muda a nossa oração.

Essa verdade transforma completamente nossa vida de oração.

Não nos aproximamos de Deus como estranhos tentando conquistar Sua aceitação. Também não nos aproximamos como servos inseguros, imaginando que qualquer falha fará com que sejamos expulsos de Sua presença. Aproximamo-nos como filhos que foram acolhidos pela graça.

Nossa confiança não está em nossos méritos. Está na obra perfeita de Cristo.

Por isso, podemos chegar diante de Deus e dizer: “Aba, Pai!” Quando estamos felizes, podemos agradecer: “Aba, Pai, obrigado por teu cuidado.” Quando estamos sofrendo, podemos repetir as palavras de Jesus no Getsêmani: “Aba, Pai, seja feita a tua vontade.

Quando não compreendemos o que Deus está fazendo, ainda podemos confiar em quem Deus é.

E quando estivermos espiritualmente fracos, não precisamos fugir de Deus envergonhados. Podemos correr para Ele.

Afinal, um filho ferido procura os braços do pai. A nossa identidade deve transformar nossas atitudes.

Hoje, lembre-se de quem você é. Se você pertence a Cristo, não vive mais sob a condenação nem debaixo da escravidão do pecado. Você foi recebido na família de Deus. O Espírito Santo habita em você e lhe concede o maravilhoso privilégio de chamar o Deus Todo-Poderoso de: “Aba, Pai!

Essa verdade precisa transformar nossa adoração, fortalecer nossas orações e nos dar paz para enfrentar qualquer circunstância, sabendo que somos amados por Aquele que nos recebeu como filhos.

Mas existe ainda uma consequência prática dessa identidade. Por que não pecar? Por que amar? Por que guardar-se incontaminado do mundo? Por que buscar uma vida santa?

A resposta não está apenas no medo das consequências. A razão mais profunda está em nossa identidade:

Porque somos filhos de Deus. Filhos desejam agradar ao Pai. Filhos procuram parecer-se com o Pai. Filhos não querem trazer vergonha ao nome da família à qual pertencem.

Portanto, nossa santidade não deve ser apenas uma tentativa de cumprir regras religiosas. Ela deve ser a expressão de uma nova identidade.

Vivamos como filhos do Pai

Que jamais nos esqueçamos do privilégio que recebemos. O Deus Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra, não apenas nos perdoou. Em Cristo, Ele nos recebeu em Sua família.

Podemos olhar para Deus com reverência, confiança e amor e dizer: “Aba, Pai!

Que essa verdade esteja presente quando orarmos, quando adorarmos, quando enfrentarmos as dificuldades e quando lutarmos contra o pecado.

E que nossas atitudes diárias reflitam aquilo que somos: filhos amados do nosso amado Pai.

Que vivamos todos os dias de acordo com essa identidade que Deus nos concedeu quando nos tornamos seguidores de seu Filho, Jesus Cristo.

Ele é o Filho único e eterno. Nós, pela graça, fomos feitos filhos de Deus por meio dele.

E este é um dos maiores privilégios que alguém pode receber nesta vida: poder chamar o Deus Todo-Poderoso de “Meu Pai“.