Você ouve um homem falar e nota que ele tem uma voz de locutor. Alguns logo pensam, deveria ser locutor, é um dom que ele recebeu. Não é bem assim. Talvez até a gente, com boa vontade e necessidade de bons pregadores pensemos: “deveria ser um pregador da palavra de Deus e usar este dom que Deus lhe deu“. Estamos completamente enganados! Uma voz de locutor não faz um homem um locutor assim como, muito menos, faz dele um pregador.
Imagine a cena. Você acabou de embarcar. Apertou o cinto. Acomodou a mala. O piloto pega o microfone para dar as boas-vindas e, antes de desejar bom voo, solta: “Gente, tenho poucas horas de voo, li o manual uma vez, sei mais ou menos o itinerário… eu tenho boa vontade e aprendo rápido, só peço uma oportunidade para vocês, mas acho que vai dar tudo certo.”
O que você faria?
Alguns correriam para a porta. Outros ligariam para casa. Poucos — muito poucos — continuariam sentados fingindo que está tudo bem.
E, no entanto, é exatamente isso que acontece todos os domingos em muitas igrejas. Subimos ao púlpito como quem entra na cabine de comando sem saber ler os instrumentos. E ninguém questiona. Ninguém se levanta. Ninguém pergunta: “Espera aí, você tem horas de voo suficientes para isso?“
Talvez esteja na hora de começarmos a perguntar. O ministério não é um “palco para talentos“.
O dom não é democrático
Paulo foi cirúrgico em 1 Coríntios 12:29-30: “São todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres?” A resposta, você já sabe, é não. Não precisa ser uma resposta teológico, é simplesmente lógica!
O Espírito distribui dons como quer. E o dom do ensino — aquele que capacita alguém a abrir as Escrituras e fazer o coração arder — não foi dado a todo mundo. Não é questão de coragem. Não é questão de disponibilidade na agenda. Não é questão de “ter uma boa lábia“.
É capacitação sobrenatural dado pelo Espírito Santo. E confundir vontade com chamado é o primeiro erro de quem nunca leu o manual.
O julgamento é mais severo para quem ensina
Tiago não deixou margem para dúvida em Tiago 3:1: “Não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor.“
Pense no peso disso. O piloto que erra a rota coloca em risco centenas de vidas. O pregador que manuseia mal a Palavra coloca em risco almas eternas. Um erro de navegação teológica não resulta em processo — resulta em gente se perdendo.
Por isso a igreja tem uma obrigação ética e espiritual: não deixar qualquer um assumir o comando. Não por elitismo. Por amor.
O preparo não é opcional
2 Timóteo 2:15 é claro: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.“
“Manejar bem” no original grego significa cortar reto, com precisão cirúrgica. Exige estudo diário. Exige conhecer o terreno. Exige teologia, exegese, oração, vida piedosa. É como um cirurgião. Ele não faz um atendimento no consultório e já te envia para a mesa de cirurgia. Ele te examina, estuda o seu caso, compara com outros casos.
A preparação de um cirurgião vai muito além da técnica: exige anos de estudo exaustivo, residência prática e treinamento em simulações antes de tocar em um paciente real. Antes de cada operação, ele estuda minuciosamente a anatomia do caso, revisa exames de imagem, planeja cada incisão e antevê possíveis complicações. Além disso, prepara seu corpo e mente com descanso e concentração, e alinha toda a equipe para que cada movimento na sala cirúrgica seja preciso e seguro. Um bom cirurgião sabe que sua mão é tão confiável quanto o conhecimento que a sustenta – e que a vida do paciente depende da excelência de sua preparação. Não deve existir cirurgião que é guiado por coragem ou boa vontade.
Quem não abre a Bíblia todos os dias está tentando decolar sem saber onde fica o painel de controle. E adivinha? O painel existe. Os instrumentos estão lá. A diferença é que o piloto responsável os estudou antes de sentar no assento.
A igreja reconhece — e confirma — o chamado
Em Atos 13:2-3, enquanto a igreja adorava, o Espírito disse: “Separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.” E a igreja impôs as mãos. Não foi um ato burocrático. Foi validação.
Paulo, em 1 Timóteo 3:1-7, lista o que se espera de quem deseja o ministério: irrepreensível, sóbrio, apto para ensinar, que governe bem a própria casa. Não é checklist de RH. É retrato de caráter.
Se o candidato não passa pelo crivo bíblico, a igreja peca ao colocá-lo no púlpito. Estaria homologando um piloto sem licença. E a companhia aérea — que, neste caso, é o corpo de Cristo — tem nome, tem rosto, tem responsabilidade.
Assim como um piloto representa a companhia aérea, o cirurgião representa o hospital o pregador representa a igreja e, muito mais importante, representa a Deus. O pregador é Deus falando.
O pouso é onde a mensagem aterrissa no coração
A pregação tem três momentos críticos, como um voo. A decolagem (introdução) precisa levantar as pessoas. O voo de cruzeiro (desenvolvimento) precisa ser tranquilo, inteligível, seguro. E o pouso (conclusão) precisa ser tão preciso que ninguém saia assustado — mas transformado.
Paulo entendeu isso em 1 Coríntios 14:19: “Prefiro falar cinco palavras com o entendimento para instruir os outros do que dez mil em língua estranha.” Clareza vale mais que eloquência. Tenho ouvido muitos pregadores falarem língua estranha mesmo falando em Português e lendo passagens bíblicas.
E o pouso perfeito está em Neemias 8:8: “Leram o livro, a lei de Deus, explicando-o e aplicando-o, de modo que o povo entendesse o que se lia.” O resultado? Em Atos 2:37, ao ouvirem Pedro, “compungiram-se em seu coração“.
Quando o pouso é bem feito, o ouvinte não aplaude o pregador. Ele diz, em silêncio: “Essa mensagem foi para mim.” Esse é o verdadeiro amém. Este é o aplauso que vem do alto, quando a mensagem é entendida e transforma.
Quem não é enviado, não deveria correr
Romanos 10:15 pergunta: “Como pregarão, se não forem enviados?” E Jeremias 23:21 denuncia: “Não mandei esses profetas, contudo, eles correram; não lhes falei, mas eles profetizaram.“
Coragem sem chamado não é fé. É presunção. E presunção no púlpito gera turbulência doutrinária, confusão espiritual e gente desviando da rota.
Os três pilares de quem deve pregar
Resumindo o que as Escrituras deixam claro:
– Chamado interno: quem recebeu o dom do Espírito (1 Co 12).
– Chamado externo: quem foi reconhecido pela igreja (Atos 13; 1 Tm 3).
– Capacitação prática: quem estuda, ora e vive o que prega (2 Tm 2:15).
Se algum desses pilares faltar, o voo está condenado à queda.
E aqui fica a pergunta que precisa ecoar em toda liderança: se a igreja não é conduzida pelo Espírito Santo, por quem está sendo conduzida?
A resposta, quase sempre, é a carne. O orgulho. A pressa. A vontade humana disfarçada de unção.
Que a igreja cuide do púlpito com a mesma seriedade com que uma companhia aérea cuida da cabine de comando. Porque lá dentro não estão apenas palavras. Estão almas. E almas merecem pilotos que saibam, de fato, como chegar em casa.
O Púlpito de Todos
A Bíblia também fala sobre o “sacerdócio real” de todos os crentes (1 Pedro 2:9). Embora nem todos sejam presbíteros, evangelistas ou mestres, todos são chamados a ministrar aos outros. O seu púlpito pode não ser no prédio da igreja, mas certamente deve ser onde você encontra o seu próximo que, principalmente, não esteve lá no domingo e aí está o púlpito mais importantes. Se você não prega com sua vida, mesmo em silêncio, certamente você não deveria pregar no domingo também.
Quero ressaltar que não precisa ter um curso de teologia com um diploma pendurado na parede dando-lhe o aval como pregador, muito pelo contrário. Quem só tem um curso e diploma e não tem o chamado do Espírito Santo, não deveria ser pregador. Paulo também afirma que sua pregação não consistia em “palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder” (1 Coríntios 2:4). O estudo é vital, mas o preparo humano sem a dependência do Espírito pode gerar um “intelectualismo estéril”.
A seleção rigorosa que cabe à igreja é a seleção que Jesus fez ao chamar os seus discípulos e apóstolos. Quem chama é o mesmo que dá o dom do Espírito Santo para pregar. O púlpito também é lugar de homens iletrados e incultos:
“Ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles estado com Jesus.” Atos 4:13
O texto deixa claro que Pedro e João tinham estado com Jesus e quem reconheceu isso, não foi o escritor de Atos, mas os próprios “…sumo sacerdote Anás, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem do sumo sacerdote…” Atos 4:6.
Finalmente, a igreja não deve ter um clero e os leigos, pelo contrário. No entanto, os ‘leigos’, todos eles, devem ser guiados pelos dons dados pelo Espírito Santo. O chamado ministerial não exige perfeição inicial.
Longe de nós toda presunção e, aí sim, coragem para pregar com intrepidez de quem claramente anda com Jesus. Estes devem ser os nossos pregadores.











