INTRODUÇÃO
Possivelmente, depois de Jesus, Paulo tenha sido o maior ganhador de almas que pisou nesta terra.
Através do trabalho dele, no primeiro século, cerca de 40 congregações da igreja do Senhor foram estabelecidas ou ajudadas por ele.
O apóstolo Paulo era um homem que aliava bem teoria à prática. Ele ensinava a verdade, mas vivia, tinha exemplos pessoais dessa verdade aplicada em sua vida.
Pensando em evangelismo, podemos folhear a Bíblia e ler tantos mandamentos a respeito. Porém, neste artigo, a partir de exemplos da vida de Paulo como pescador de pessoas, quero destacar 5 situações que um evangelizador deve ter em mente para, sim, evangelizar com fé, mas também com pés no chão no tocante aos resultados, que podem demorar e às vezes, até parecer que são inexistentes.
Se você é alguém que se esforça para evangelizar, possivelmente esses 5 acontecimentos já ocorreram em sua vida.
1) Seremos recebidos como anjos de Deus, mas, depois, rejeitados e, talvez, pela maioria.
Textos: Atos 14:8-13, 18-20 e Gálatas 4:13-16
Haverá um momento em que o ganhador de almas será muito valorizado. No mundo religioso, os líderes abusam disso para explorar as pessoas, especialmente financeiramente.
No texto do livro de Atos, na cidade de Lisboa, Paulo e Barnabé, após realizarem uma cura, são tratados como deuses. Tiveram que se esforçar para que o sacerdote do templo dedicado a deuses romanos local na cidade não oferecesse a eles sacrifício.
Quando contamos com a aceitação das pessoas, quando elas topam estudar a Bíblia, temos que tomar certos cuidados, pois, nesse momento, nossa palavra terá muita força e precisamos canalizá-la para a Palavra de Deus, a Bíblia, para Jesus e não para nós.
O evangelizador não deve se “embriagar” com aquele sucesso momentâneo. Chegará a hora da verdade em que o jogo pode mudar.
Voltando ao texto de Atos, logo em seguida a aceitação das mesmas multidões perseguem os pregadores e apedrejam Paulo, deixando-o quase morto.
O mesmo ocorreu com a relação de Paulo com os gálatas. Na carta em que corrige o seu desvio doutrinário, o apóstolo diz que foi recebido como o próprio Jesus, mas que agora tem sido rejeitado.
“E vocês sabem que eu lhes preguei o evangelho pela primeira vez por causa de uma enfermidade física. E, por mais que a minha enfermidade na carne lhes tenha sido uma provação, vocês não me trataram com desprezo nem desgosto. Pelo contrário, me receberam como anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus. O que aconteceu com a felicidade que vocês tinham? Porque posso dar testemunho de que, se fosse possível, vocês teriam arrancado os próprios olhos para me dar! Será que, por dizer a verdade, me tornei inimigo de vocês?” – Gálatas 4:13-16
Da quase adoração à rejeição, é algo que devemos sempre estar esperando. Devemos lembrar que somos apenas instrumentos de Deus, e o rejeitado sempre é Deus, não a gente.
Lembro dos grupos da Escola da Bíblia que tivemos. Num dos grupos 70 pessoas nos procuraram, cerca de 40 fizeram a matrícula, mas somente cerca de 15 terminaram, com uma família acrescentada ao corpo de Cristo.
Lembro de uma pessoa com quem estudei, que queria até confessar seus pecados para mim e hoje, quando lhe mando uma mensagem, simplesmente ignora. Houve outro que estudou comigo a Palavra, mas no seu momento de desânimo espiritual, ao visitá-lo, ele pulou o muro de sua casa e foi refugiar-se na casa da avó para não falar comigo. Outro que abriu a casa para estudo, tratava com tanta deferência que, ao ter uma crise na fé, quando fui visitar, baixou a tv para que eu pensasse que ele não estava em casa. Durante a pandemia estudei a Bíblia com cerca de 12 pessoas, 6 aceitaram, mas os outros 6 simplesmente desapareceram e não querem contato.
Somos anjos de Deus, mensageiros dele, seremos aceitos, por isso precisamos chamar sempre a atenção para Jesus para irmos tornando-nos irrelevantes. Isso evitará frustrações. Jesus deve crescer, não nós (João 3:30).
Por que farão isso? Faz parte dos altos e baixos humanos e, reconheço, até mesmo por causa da nossa própria imperfeição. Daí não deixarmos de insistir a apontar para Jesus, não para nós mesmos.
- Haverá sempre um amigo entre os irmãos para nos apoiar.
A igreja em Corinto talvez tenha sido a igreja que mais causou angústia no apóstolo Paulo. Ele escreveu, no mínimo, 3 cartas, as duas que estão na Bíblia e uma delas desconhecida, a chamada carta dolorosa/severa.
Quase o apóstolo perdeu o contato que mantinha com a igreja. Ele mandou Timóteo, parece rejeitado, mandou Tito, que foi aceito. E através dele, Paulo restabeleceu o contato com aquela congregação. Vejamos as palavras dele:
“Porque, quando chegamos à Macedônia, não tivemos nenhum alívio. Pelo contrário, em tudo fomos atribulados: lutas por fora, temores por dentro. Porém Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a chegada de Tito. E não somente com a chegada dele, mas também pelo consolo que recebeu de vocês. Ele nos falou da saudade, do pranto e do zelo que vocês têm por mim, aumentando, assim, a minha alegria. Porque, mesmo que eu tenha entristecido vocês com a minha carta, não me arrependo — embora já tenha me arrependido, pois vi que aquela carta os deixou tristes, ainda que por breve tempo.” – 2 Coríntios 7:5-8
O evangelizador se sentirá sozinho, pois, lamento dizer, a maioria dos irmãos está mais interessada em viver uma fé de manutenção, não de expansão. A maioria se contenta em participar do culto dominical, até de uma ou outra reunião extra com a igreja. Mas, quando falamos em sair, evangelizar, a maioria dá uma desculpa e não participa, outros começam, mas logo desistem e ficamos quase sozinhos.
No entanto, sempre há alguns que permanecem, mesmo quando somos abandonados pela maioria de nossos contatos. No meu caso, posso citar minha esposa e alguns irmãos nos Pimentas, que estão lá, presentes, participando, incentivando, até o fim do processo.
Lembrando que há uma promessa de Deus. Ele jamais permitirá provas além do que podemos suportar (1 Coríntios 10:13).
3) Deus promete que irá nos sustentar com o pão nosso de cada dia. Sempre. Nosso patrão garante nosso sustento.
Jesus disse: “Digno é o trabalhador do seu salário”. – Lucas 10:7
Em Atos 18:1-5, o texto diz que Paulo pôde se dedicar integralmente à pregação do evangelho na cidade de Corinto, após a chegada de Timóteo e Silas (aqueles irmãos/amigos que nunca faltam), que provavelmente trouxeram uma oferta das igrejas da Macedônia (2 Coríntios 8:1-5 e Filipenses 4:16). Paulo estava livre para dedicar-se totalmente ao evangelho.
Claro que aí há um milagre duplo. Num deles, Deus, sim, realiza o milagre e nos sustenta com o pão nosso de cada dia. Ao mesmo tempo, trabalha em nós interiormente, produzindo contentamento pelo que temos.
Paulo diz em Filipenses 4:11-12: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação, tanto em fartura como em escassez”.
Na minha vida Deus tem feito grandes milagres nessas mais de 3 décadas que eu o sigo. Batizado em agosto de 1988, experimentei desemprego por 3 meses, de novembro daquele ano a janeiro de 1989. De lá para cá não fiquei um dia sequer desempregado. É um milagre que Deus tem feito na minha vida. Ao mesmo tempo tenho procurado viver uma vida simples, contente com o que tenho, comemoro a dispensa de casa sendo reposta a cada mês. Não preciso de muito para estar feliz. Minha felicidade não depende de ter o que o outro tem, nem me comparo com o outro.
- Tenhamos a certeza: portas para o evangelismo se abrem de onde menos esperamos.
Quem diria que daquela reunião com um grupo de mulheres na beira de um rio na cidade de Filipos, teria início a comunidade de Cristo com quem Paulo manteve o relacionamento mais íntimo e foi tão ajudado? Veja Atos 16:10-15 e Filipenses 4:11-18.
Quem diria que naquela igreja, formada numa cidade sem sinagoga, numa reunião de mulheres, existiria uma igreja tão amorosa e cuidadosa com Paulo?
No meu caso, durante a pandemia, com a igreja reunindo nas casas e depois pelos aplicativos Youtube e zoom, foi uma época que trabalhei muito na pregação do evangelho. Umas duas dezenas de pessoas apareceram, uma dúzia aceitou estudar a Palavra e, destas, 6 desceram às águas do batismo.
Precisamos estar ligados, sermos sensitivos para enxergar o perdido faminto.
Estudando com um casal na pandemia, inicialmente presencialmente e depois pelo aplicativo, uma tarde a mulher me disse: “Quero ser batizada”, isto numa tarde de sábado. Abrimos o prédio da igreja, a batizamos e meses depois foi a vez de seu marido.
Só Deus mesmo para nos dar esse privilégio de ser ganhador de almas que nos proporciona tamanha alegria.
- Cuidado: haverá momentos em que as pessoas podem querer nos “matar” da vida delas.
Quantas e quantas vezes Paulo teve que fugir para não ser morto? De cidade em cidade, como aconteceu em Tessalônica, Beréia, Icônio e Listra (ver Atos 13-14). Na segunda carta aos Coríntios o apóstolo relata as perseguições que sofreu, capítulos 10-11. Veja o que ele relatou sobre um irmão desviado.
“Alexandre, o ferreiro, me causou muitos males; o Senhor dará a retribuição de acordo com o que ele fez.” – 2 Timóteo 4:14
No passado, as pessoas literalmente matavam o pregador. Basta lembrar de João Batista, morto por pregar a verdade a Herodes (Lucas 3:19-20 e Marcos 6:14-29).
Hoje as pessoas nos “matam” da vida delas. O mensageiro de Deus não deve ter fome por popularidade, pois muitas vezes se sentirá abandonado, na solidão. Precisa estar pronto para ser rejeitado.
Lembro de várias pessoas com quem estudei e algumas disseram: “Valdir, quero ser batizado, estou perdido”. Que alegria ver uma pessoa nascer da água e do Espírito.
Outros, no entanto, me disseram: “isto não é para mim”, “sou muito jovem”, “é muito compromisso”, entre outras desculpas, e começam a me matar da vida delas. Tenho alguns que me mataram de tal forma que, quando me encontram, querem apenas um aperto de mão e nada mais.
APLICAÇÃO E CONCLUSÃO
“Lembrem-se da palavra que eu disse a vocês: “O servo não é maior do que seu senhor.” Se perseguiram a mim, também perseguirão vocês; se guardaram a minha palavra, também guardarão a de vocês. – João 15:20
Seremos recebidos, até bem demais, não nos embriaguemos com o sucesso.
Jesus foi recebido com festa no domingo na cidade de Jerusalém. Na sexta de manhã, talvez parte do mesmo povo, pedia a sua crucificação.
Porém, após sua ressurreição, em um dos encontros, 500 seguidores de uma vez o viram. No dia de Pentecostes, três mil entraram na igreja fundada naquele dia. Depois milhares. E hoje milhões e milhões.
Assim será conosco, não somos melhores do que Jesus, seremos aceitos e rejeitados. Até a volta de Cristo.
Que estas verdades nos ajudem a nunca desanimar de nosso papel de pescadores de gente. Com fé, muita fé, mas também com muito pé no chão quanto aos resultados e os momentos de aceitação e rejeição.











