Quem? Eu?

“Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” – Lucas 24.45

Era o ano de 1995, quando fiz a pergunta: “Quem? Eu?” Eu estava com 21 anos, casado há quase dois anos com minha digníssima esposa Clarice, mas minha mente ainda era a de solteiro. Toda sexta-feira eu saía com os colegas da empresa onde trabalhava para beber e “aproveitar”, enquanto minha esposa ficava sozinha. Ela não reclamava; parecia ser costume popular, pelo menos no meio em que vivíamos.

Não sei por quê, mas foi nesse ano que comecei a ler, na hora do almoço, um Novo Testamento (dos Gideões) que carregava na mochila, mas nunca tinha lido. Na verdade, eu o carregava, quem sabe, como uma espécie de amuleto, pois era a Palavra de Deus ali — parece que eu sabia disso, não sei como, porque não aprendi isso em casa.

O fato é que, naquele ano, a leitura daquele pequeno “grande” livro — pequeno no tamanho, mas gigante em seu conteúdo — fez com que eu começasse a me sentir mal diante das minhas próprias atitudes. E isso só piorava cada vez que eu lia e me deparava com o meu próprio pecado. Não sabia o que fazer, mas também comecei a descobrir que havia perdão para mim. A partir daquele momento, a pergunta começou a bater em minha mente: “Quem? Eu?” Essa pergunta começou a me incomodar, mas eu continuava saindo com os colegas toda sexta-feira.

É estranho, mas eu comecei, de alguma forma, a compreender algo sobre as Escrituras. Não parei mais de ler desde aquele momento. O meu entendimento estava se abrindo, e isso só fazia aumentar o meu sentimento de culpa e de não merecimento, pois o pecado, que antes era ignorado, agora se tornara uma carga pesada para carregar. Ainda demoraria alguns anos até que eu compreendesse que sim, Ele me aceitava, que estava disposto a me perdoar. Mas eu continuava me perguntando: “Quem? Eu?”

Era difícil acreditar que alguém estivesse disposto a me tirar do lamaçal do pecado, agora percebido. Escrevo nesse momento com os olhos lacrimejando e continuo perguntando: “Quem? Eu?”

Um dia, eu estava lendo o Novo Testamento de que falei acima, quando um colega da igreja presbiteriana se ofereceu para me ajudar. Esse seria o meu primeiro contato com alguém estudando a Bíblia comigo. Fui pela primeira vez a uma “igreja evangélica”. A experiência não foi ruim, mas o comportamento da pessoa que estudava, ou lia a Bíblia comigo na hora do almoço, não batia com o que eu havia lido. Comecei a questionar, e as respostas não me satisfaziam.

Foi então que uma testemunha de Jeová também me ofereceu um estudo bíblico. Mas aconteceu uma coisa estranha. Não sei explicar direito o que ocorreu, mas vou relatar.

Como era na hora do almoço, sempre almoçávamos um pouco mais rápido para ter mais tempo. Nesse dia, sentamos para estudar e, quando ele abriu a boca, teve uma crise de tosse que durou alguns minutos. Quando voltou, abriu a boca para falar e veio outra crise. Como ele era branco, durante as crises ficava vermelho. Passado o tempo, precisamos retornar ao trabalho, e ele me disse: “Não sei o que aconteceu, mas amanhã retomamos.” Eu respondi: “Acho melhor não. Vou continuar lendo sozinho mesmo.” Ele insistiu, mas eu mantive minha decisão, embora o exemplo dele fosse coerente com aquilo em que acreditava. Enfim, não deu certo.

A pergunta “Quem? Eu?” e o meu estilo de vida pecaminoso continuavam me incomodando, e eu não sabia o que fazer. O meu entendimento estava se abrindo, mas não estava me trazendo paz, e sim desconforto. O que fazer com tudo isso que estava ocorrendo dentro de mim?

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