DIREITA, ESQUERDA e DO ALTO

Entre A Direita, A Esquerda E O Reino De Deus

Uma imagem ou uma frase simples nas redes sociais pode revelar muito sobre o coração das pessoas. Apesar de acreditar que uma imagem vale mais do que mil frases, ainda assim tem quem terá argumentos. Foi o que aconteceu com a publicação: “Não sou de direita nem de esquerda. Minha direção vem do alto. Meu candidato é Jesus, meu partido é a Igreja, minha ideologia é o Evangelho.” Os comentários mostraram preocupações com liberdade religiosa, família, valores, corrupção e o futuro do país, mas também revelaram algo mais profundo: medo, indignação, esperança e, principalmente, a dificuldade de manter a unidade cristã quando nossas convicções políticas são diferentes. Por trás de tudo existe uma pergunta fundamental: quando nossas posições políticas são confrontadas, continuamos sendo discípulos de Cristo ou passamos a enxergar tudo pela lente da política?

Uma história real: quando a fé ficou acima da ideologia

Na Alemanha nazista, o pastor e teólogo Dietrich Bonhoeffer enfrentou uma situação semelhante. O regime de Hitler tentou controlar também a Igreja, e muitos cristãos acabaram se adaptando às exigências do governo. Bonhoeffer, porém, participou da Igreja Confessante, que rejeitou a tentativa do Estado de controlar a mensagem cristã.

Em 1934, a Declaração de Barmen afirmou que a Igreja deveria ouvir e obedecer a Jesus Cristo como seu único Senhor.

Bonhoeffer não foi omisso diante da injustiça, mas também não transformou a Igreja em um partido político. Sua referência não era uma ideologia humana. Era Cristo. Por sua resistência ao regime, foi preso e executado em 1945.

Sua história nos ensina algo importante: colocar Cristo acima da política não significa ser indiferente ao que acontece na sociedade. Às vezes, justamente porque Cristo está acima da política, o cristão precisa ter coragem para confrontar aquilo que é errado.

A questão, portanto, não é apenas “de que lado estamos?”, mas “quem determina nossas escolhas quando nosso lado político entra em conflito com Cristo?”

Como disseram os apóstolos:

“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.”
Atos 5:29

Essa é a pergunta que os comentários daquela publicação colocaram diante de nós: não apenas em quem devemos votar, mas quem realmente tem autoridade sobre nossa consciência.

Repetindo o que a publicação dizia:

NÃO SOU DE DIREITA NEM DE ESQUERDA.
MINHA DIREÇÃO VEM DO ALTO.
MEU CANDIDATO É JESUS.
MEU PARTIDO É A IGREJA.
MINHA IDEOLOGIA É O EVANGELHO.

“O meu reino não é deste mundo.” — João 18:36

A intenção da frase, considerando também os comentários que ela provocou, não parece ser dizer que o cristão deve ser indiferente à política, deixar de votar ou abandonar sua responsabilidade como cidadão. A intenção é estabelecer uma ordem de prioridades: antes de ser de direita ou de esquerda, o cristão é discípulo de Cristo; antes de pertencer a uma corrente política, pertence ao Senhor; antes de defender uma ideologia, deve submeter suas convicções à Palavra de Deus.

Os comentários, porém, mostraram que essa frase tocou em questões muito mais profundas. Alguns demonstraram preocupação com a liberdade religiosa, a família, a vida, a corrupção e os rumos do país. Outros manifestaram preocupação com a idolatria política e com a maneira como irmãos estão tratando uns aos outros. Outros simplesmente reafirmaram sua confiança em Deus.

Por isso, vale a pena fazer uma leitura mais cuidadosa dessas manifestações. Não apenas para discutir política, mas para olhar para o comportamento cristão diante da política e voltar a colocar diante de nós a Palavra, Cristo e os exemplos deixados pelos primeiros discípulos.

O cristão é cidadão, mas sua identidade não está na política

David Inacio Santos da Silveira fez uma observação muito pertinente ao lembrar que o cristão, além de seguidor de Cristo, também é cidadão, com direitos e deveres. Essa é uma dimensão que não devemos ignorar.

A Bíblia não ensina que o cristão deve abandonar a sociedade. Paulo, por exemplo, exerceu seus direitos como cidadão romano. Em Atos 22:25, ele questionou se era lícito açoitar um cidadão romano sem condenação. Mais tarde, em Atos 25:11, utilizou seu direito de apelar para César.

Portanto, exercer cidadania não é contrário à fé cristã.

O ponto da publicação não é dizer que o cristão deve deixar de participar da vida pública. O ponto é lembrar que a cidadania terrena não pode ocupar o lugar da cidadania celestial.

Paulo escreveu:

“Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.”
Filipenses 3:20

O cristão pode ter uma posição política, mas sua identidade não pode depender dela. Pode votar em determinado candidato, mas não pode transformar esse candidato em seu salvador. Pode defender determinada proposta, mas não pode transformar uma ideologia em seu evangelho.

A preocupação com os valores cristãos é legítima

Viridiana Demarco e Jhovana França levantaram uma preocupação importante: o cristão não pode usar a neutralidade como desculpa para deixar de defender aquilo que entende ser verdadeiro.

Jhovana escreveu que o cristão precisa “imitar a Cristo” e, com mansidão e amor, defender aquilo que Cristo defende. Esse é um princípio correto.

Jesus nunca ensinou covardia espiritual.

Os apóstolos também não foram omissos quando a verdade estava sendo atacada. Quando receberam a ordem de parar de pregar, responderam:

“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.”
Atos 5:29

O problema é que precisamos distinguir firmeza cristã de partidarismo político.

Não precisamos ser de direita para defender a verdade. Também não precisamos ser de esquerda para defender justiça. E não precisamos abandonar nossas convicções para sermos amorosos.

O cristão deve aprender a fazer algo que nossa cultura política tem dificuldade de fazer: defender princípios sem transformar pessoas em inimigos.

Não estar à direita nem à esquerda não significa estar “em cima do muro”

Alguns comentários entenderam a frase como uma espécie de convite à omissão. Mas essa não é a intenção.

Existe uma diferença entre não assumir uma identidade partidária e não possuir convicções.

O cristão pode ter convicções muito firmes sobre família, vida, liberdade religiosa, justiça, honestidade, corrupção, educação, pobreza, segurança e responsabilidade individual. Ele simplesmente não precisa encontrar uma ideologia humana que contenha perfeitamente todos os valores do Evangelho.

A Palavra de Deus é maior do que qualquer programa partidário.

Paulo escreveu:

“Julgai todas as coisas, retende o que é bom.”
1 Tessalonicenses 5:21

Isso exige discernimento. O cristão não deveria simplesmente perguntar: “O que meu partido diz?” A pergunta deveria ser: “O que a Palavra de Deus diz sobre isso?”

Não julgar a fé pela posição política

Léia escreveu:

“Não julguem a fé do irmão, pela posição política dele.”

Essa frase merece ser preservada. É possível discordar profundamente de um irmão em questões políticas sem concluir que ele deixou de ser irmão, perdeu a fé ou deixou de amar Cristo. Romanos 14 é extremamente importante aqui. Paulo tratou de divergências entre cristãos e ensinou:

“Quem és tu que julgas o servo alheio?”
Romanos 14:4

E também:

“Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente.”
Romanos 14:5

Isso não significa que todas as opiniões são igualmente corretas. Significa que precisamos reconhecer os limites de nossa autoridade. Não podemos transformar uma preferência política em mandamento de Deus.

Uma mudança que começa dentro de nós

O comentário de Cleonice trouxe uma das reflexões mais profundas de toda a discussão. Ela escreveu que a mudança que buscamos no outro precisa começar em nós e que devemos perguntar o que aconteceria se Jesus estivesse no lugar daquele que estamos escolhendo ou criticando.

Essa reflexão nos leva diretamente às palavras de Jesus:

“Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?”
Mateus 7:3

Existe uma tentação muito grande na política: acreditar que todos os problemas estão no outro lado.

Se somos de direita, o problema é a esquerda. Se somos de esquerda, o problema é a direita. Se somos de um determinado partido, o problema é o outro partido.

Jesus nos chama para algo mais difícil: examinar primeiro o nosso próprio coração. É fácil exigir honestidade de um político. Mais difícil é ser honesto quando ninguém está olhando. É fácil denunciar corrupção. Mais difícil é não ser desonesto nas pequenas coisas. É fácil exigir respeito. Mais difícil é respeitar aquele que pensa diferente. É fácil falar de família. Mais difícil é construir dentro de casa uma família segundo os princípios de Cristo. É fácil cobrar santidade dos outros. Mais difícil é viver em santidade.

Um cristão pode assumir uma posição política

Lúcia foi direta ao afirmar:

“Sou cristã e não apoio o que a Bíblia reprova! […] Sou de direita sim.”

Não há necessidade de constranger alguém por assumir uma posição política. Um cristão pode ser de direita. Pode ser de esquerda. Pode não se identificar com nenhuma das duas.

A questão bíblica mais importante não é simplesmente qual posição política a pessoa escolheu, mas o que essa posição está fazendo dentro do coração dela.

Se a posição política se torna mais importante que Cristo, há um problema.

Se o candidato passa a ser defendido mesmo quando pratica aquilo que condenaríamos em um adversário, há um problema. Se passamos a justificar mentira, violência, corrupção ou injustiça porque foram praticadas por alguém do nosso lado, há um problema. A verdade precisa permanecer verdade, independentemente de quem a pratique ou viole.

Aqui no mundo precisamos, sim, deixar de escolher um lado porque já entregamos nossas vidas para ser comandada pelas coisas que são lá do alto. Mesmo que discordemos entre nós, e quando isso acontece, o que a voz lá do alto nos diz aqui através da Bíblia? Não diz para escolher um lado, condenar o irmão e amar menos por conta de escolhas efêmeras.

Identificado uma das maiores ameaças

Wilson escreveu:

“Divergência de ideias todos nós teremos […] Agora divergência de amor, fica complicado.”

Essa frase merece atenção especial. A Igreja não será destruída porque seus membros votam diferente. Ela pode ser profundamente ferida quando seus membros deixam de se amar porque votam diferente.

Jesus disse:

“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.”
João 13:35

Jesus não disse que o mundo reconheceria seus discípulos porque todos escolheriam o mesmo candidato. O sinal seria o amor. Por isso, podemos discutir política, discordar de ideias e até considerar determinada posição profundamente equivocada. Mas existe uma maneira cristã de fazer isso.

Paulo escreveu:

“Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens.”
Romanos 12:18

A pergunta não é apenas “Estou certo?” Também precisamos perguntar: “Estou tratando meu irmão como Cristo trataria?”

A preocupação é compreensível

Ana Maria Gomes escreveu:

“tento votar em quem, talvez, prejudique menos o meu direito de exercer a minha fé”

Existe aqui uma preocupação legítima. A Bíblia mostra que os cristãos devem orar pelas autoridades:

“Antes de tudo, pois, que se façam súplicas, orações, intercessões, ações de graças […] pelos reis e por todos os que se acham investidos de autoridade.”
1 Timóteo 2:1-2

O motivo apresentado por Paulo é muito significativo:

“para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.”

Portanto, não é errado pensar sobre como as decisões políticas podem afetar a liberdade de pregar o Evangelho e viver a fé. Mas precisamos evitar outro extremo: acreditar que a sobrevivência do Evangelho depende de determinado partido. Não depende, o evangelho não é de esquerda ou direita, é do alto. Rotular Jesus de esquerda ou direita é rebaixar Jesus. Leviano a intenção que faz isso. Isto é atitude horizontal quando somos chamados para viver o vertical. É a contracultura cristã.

O Evangelho sobreviveu ao Império Romano. Sobreviveu a perseguições. Sobreviveu a governos hostis. Sobreviveu quando os cristãos não tinham qualquer poder político. A Igreja não precisa de um governante para ser Igreja. O evangelho vai sobreviver à esquerda ou direita. As portas do inferno não podem prevalecer a igreja edificada por Jesus.

Ela precisa permanecer fiel a Cristo.

A questão da idolatria política precisa ser levada a sério

Alguns comentários demonstraram preocupação com irmãos que estariam colocando políticos ou famílias políticas em um lugar exageradamente elevado. Sem entrar no julgamento individual de ninguém, o princípio bíblico é claro: nenhum ser humano merece a confiança que pertence somente a Deus.

O salmista escreveu:

“Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação.”
Salmo 146:3

Isso não significa que não devemos votar ou escolher representantes. Significa que não devemos esperar de políticos aquilo que somente Deus pode oferecer. Nenhum presidente pode ser nosso messias. Nenhum partido pode ser nosso salvador. Nenhuma eleição pode estabelecer o Reino de Deus.

Quando começamos a tratar um político como aquele que finalmente salvará o país, precisamos lembrar que já temos um Salvador.

“E não há salvação em nenhum outro.”
Atos 4:12

Cristãos também são cidadãos

O comentário de Seann foi um dos mais desenvolvidos e defendeu a responsabilidade cívica do cristão. Ele apontou para liberdade religiosa, proteção da vida e valorização da família. São preocupações que podem encontrar fundamentos bíblicos.

A Bíblia ensina que o ser humano foi criado à imagem de Deus:

Gênesis 1:27 – Apresenta a família dentro do propósito criador:

Gênesis 2:24 – E Jesus ordenou que seus discípulos anunciassem o Evangelho:

Mateus 28:19-20 – Mas é importante ampliar os critérios.

A ética bíblica não se resume a temas que coincidem com determinada plataforma política.

A Bíblia também fala continuamente de justiça, misericórdia, honestidade, pobres, estrangeiros, órfãos, viúvas, corrupção, abuso de poder e cuidado com o próximo. Então, a Bíblia alimenta a direita e a esquerda, mas eles não se alimentam da Bíblia, se armam com ela. No entanto, o maior vilão contra quem a Bíblia deve ser usada, não é carne nem sangue, mas os poderes do ar, do comandante desta terra.

Miquéias resume:

“Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus.”
Miquéias 6:8

Por isso, o cristão precisa avaliar o conjunto, e não apenas os assuntos que confirmam sua preferência política.

Coerência

Marcelo escreveu que o cristão não deve ser hipócrita ou cúmplice de criminosos e que deve votar com sabedoria.

Aqui existe um princípio que deveria ser aplicado igualmente a todos os lados. Se a mentira é errada, é errada quando praticada pelo meu candidato.

Se a corrupção é errada, é errada quando beneficia o meu grupo. Se a violência é errada, continua sendo errada quando é praticada por alguém que defende aquilo em que acredito. Se a injustiça é pecado, não deixa de ser pecado porque foi praticada por alguém que vota como eu.

Jesus condenou a hipocrisia repetidamente, especialmente em Mateus 23.

O Evangelho exige coerência.

E quando alguém decide não votar em nenhum dos dois?

Oliveira escreveu:

“Não voto em nenhum dos dois.”

Também aqui precisamos ter cuidado.

Não encontramos no Novo Testamento um mandamento dizendo que o cristão precisa obrigatoriamente escolher entre dois candidatos. Tampouco encontramos um mandamento que obrigue o cristão a se abster.

Existe espaço para consciência, discernimento e responsabilidade. Romanos 14 ensina que existem situações em que cada pessoa precisa agir segundo sua consciência diante de Deus. Portanto, não devemos transformar uma escolha pessoal em doutrina universal.

Um irmão pode votar. Outro pode anular. Outro pode se abster. Outro pode escolher determinado candidato.

O que todos precisam fazer é submeter sua consciência a Deus e tratar seus irmãos com amor. Cada um dará conta do que fez através da consciência e do corpo, a Deus, e não aos irmãos que pensam diferente.

E o que Jesus faria?

Essa pergunta apareceu de maneira direta ou indireta em vários comentários.

Precisamos ter cuidado para não colocar palavras na boca de Jesus. Não sabemos em quem Jesus votaria numa eleição moderna. Não temos uma resposta bíblica para isso. Novamente: colocar Jesus na direita ou na esquerda é rebaixar Jesus. Na época de Jesus não existia direita ou esquerda, existia o governo Romano e ponto! Se você tivesse uma posição à esquerda ou à direita, o Império Romano resolvia isso rapidinho com uma cruz… Jesus não cabe nas nossas caixinhas pobres, apesar de ter nascido numa manjedora.

Mas sabemos como Jesus agia. Jesus não buscou transformar seu ministério em um movimento político. Em João 6:15, quando percebeu que queriam proclamá-lo rei, retirou-se. Quando perguntaram sobre César, Jesus respondeu:

“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”
Mateus 22:21

Quando Pilatos questionou seu Reino, Jesus afirmou:

“O meu reino não é deste mundo.”
João 18:36

Jesus também confrontou o pecado dos poderosos. Não foi omisso. Não foi covarde. Não foi politicamente conveniente. Mas também não permitiu que seu Reino fosse reduzido a uma disputa política.

Essa é uma lição importante.

Jesus não era indiferente ao mundo, mas também não pertencia à lógica do mundo.

E o que os apóstolos fizeram?

Os apóstolos não criaram um partido cristão. Eles não criaram o “Império de Cristo na Terra”. Eles foram as colunas da igreja com pedras vivas. Nem sequer de ‘pastor’ eles eram chamados, porque eles tinham um Pastor e Bispo das nossas almas. Eles pregaram Cristo. Eles ensinaram os discípulos. Cuidaram dos necessitados. Confrontaram o pecado. Oraram pelos governantes. Respeitaram as autoridades.

E, quando uma autoridade exigiu algo contrário à vontade de Deus, disseram:

“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.”
Atos 5:29

Paulo utilizou seus direitos civis quando necessário. Os cristãos eram cidadãos, mas sabiam que sua lealdade última não estava em Roma. Essa continua sendo uma boa referência para nós.

O que os comentários revelam sobre o ânimo das pessoas?

Lendo o conjunto das respostas, percebo pelo menos quatro sentimentos muito fortes.

Há MEDO. Medo de perder valores, liberdade religiosa, segurança, família e estabilidade. Há indignação. Algumas pessoas estão cansadas de corrupção, injustiça, mentira e aquilo que consideram degradação moral. Há esperança. Muitos ainda acreditam que é possível melhorar o país por meio de escolhas responsáveis e princípios sólidos. Mas existe também cansaço. E talvez esse seja o sentimento que mais deveríamos observar. Cansaço de brigas.

Cansaço de irmãos se ofendendo. Cansaço de transformar toda conversa em disputa política. Cansaço de ver pessoas colocando sua identidade em candidatos, partidos e ideologias. É justamente nesse ambiente que a Igreja precisa apresentar algo que o mundo não consegue oferecer: Cristo.

De uma forma respeitosa digo também que revelam falta de fé, esperança e amor (1 Co 13).
Falta de Fé. Tenhamos fé que Deus está no controle e tudo o que acontece (direita ou esquerda no poder) está dentro do plano de Deus e está indo muito bem, não importa quem ganhe, Deus reina!
Falta de esperança. Assim como a fé, a esperança é o que ainda nos resta. Não pense que verá os candidatos falando em línguas que o povo consegue entender, fazendo milagres econômicos, curas em hospitais públicos e nos darão segurança e perspectiva de futuro. Nada disso! A nossa esperança vem de Deus!

Assim como Paulo escreveu em Coríntios e, nesta pequena lista, deixou o amor por último, mas o apontou como o mais importante.
E o que falta é amor. Já pensou que Deus está testando você se é um verdadeiro discípulo ou não? O seu comportamento comparado ao mandamento de Jesus revela quem você é. Essa é a assinatura do discípulo de Jesus em nós. Não é para amar o mundo nem as coisas que estão nele. Jesus disse isso como mandamento. Mesmo que Simão, o zelote, fosse de esquerda ou extrema direita, o mandamento era para amá-lo. Desculpa, Simão, não queria colocar um rótulo moderno em você. Amor ao próximo mesmo que seja difícil, mesmo que doa, mesmo que nos pareça complicado, mesmo que ele seja de um lado ou esteja de outro. Sem amor, nunca iremos para cima.

Quem ocupa o coração

Talvez essa seja a principal conclusão que podemos tirar dessa discussão.

A frase publicada não pretendia ensinar que o cristão deve abandonar a cidadania. Ela pretendia lembrar que nenhuma identidade política pode ocupar o lugar da identidade cristã.

O cristão pode ser cidadão brasileiro e cidadão do céu. Pode votar e continuar sabendo que seu Salvador não está na urna. Pode defender valores bíblicos e continuar amando quem pensa diferente. Pode denunciar o pecado sem odiar o pecador. Pode discordar sem destruir a comunhão. Pode ter convicções políticas sem transformar política em religião. Pode participar da sociedade sem permitir que a sociedade determine sua fé.

Porque a nossa esperança não está em Brasília.

Não está na direita. Não está na esquerda. Não está em um partido. Não está em uma família política. Não está em um presidente. Nossa esperança está em Cristo. Paulo escreveu:

“Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.”
Filipenses 3:20

E Hebreus nos lembra:

“Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre.”
Hebreus 13:8

Os governos passam. Os partidos passam. Os candidatos passam. As ideologias passam.

Cristo permanece.

Por isso, talvez a melhor resposta para todos os comentários seja voltar ao princípio que motivou a publicação:

NÃO SOU DE DIREITA NEM DE ESQUERDA. MINHA DIREÇÃO VEM DO ALTO.

Isso não é um chamado à omissão. É um chamado à prioridade. Não significa abandonar a cidadania. Significa não permitir que a cidadania substitua a fé. Não deveríamos proclamar nosso voto, partido, candidato ou ideologia, mas o evangelho.

Não significa deixar de defender princípios. Significa lembrar de onde vêm nossos princípios. Não significa ficar em cima do muro. Significa não colocar nossa vida dentro de uma caixa política quando Cristo nos chamou para algo muito maior. E, no fim, a pergunta mais importante não é:

“De que lado você está?”

A pergunta é:

“Cristo está governando sua maneira de pensar, votar, falar, discordar e tratar seu irmão?”

Porque podemos estar certos sobre política e errados sobre Cristo. Podemos ganhar uma discussão e perder um irmão. Podemos defender valores cristãos usando métodos que não têm nada de cristãos. Podemos falar muito sobre o Evangelho e demonstrar pouco do caráter de Cristo. Jesus nos deixou um critério muito mais alto:

“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.”
João 13:35

Esse é o ponto em que a política precisa parar e o Evangelho precisa falar.

Nosso país precisa de cidadãos responsáveis.
Nossa sociedade precisa de pessoas honestas.
Nossa Igreja precisa de irmãos maduros.
Mas todos nós precisamos, acima de tudo, de Cristo.

E talvez seja justamente isso que aquela frase pretendia dizer desde o começo.

Finalmente, agradeço muito os comentários de todos. Realmente enriqueceram muito e fico grato por ter aproveitado a oportunidade que me deram juntamente com seus comentários. Deus seja louvado e abençoe a cada um individualmente para que dê entendimento a todos nós. Se eu pudesse, reuniria a todos a muitos outros mais, não para discutir opiniões, mas para termos comunhão e começar a viver e desfrutar aqui, as coisas lá do alto…